A audiodescrição precisa dominar o mundo!

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Existe algo de extraordinário acontecendo. A audiodescrição (AD) está ganhando força e invadindo novos espaços!

Ainda estou incrédula diante do grupo Tholl que assisti essa semana no Salão de Atos da UFRGS com audiodescrição.

Um espetáculo circense (http://www.grupotholl.com) – com acrobacias, dança, jogo de luzes, malabarismos, números com fogo – foi acessível também a pessoas cegas e com baixa visão.

A experiência foi, para mim, uma quebra de paradigmas. Eu já havia deixado de assistir ao Tholl anos atrás quando minha prima Andjara, de Minas Gerais, veio visitar Porto Alegre.

Na época, toda minha família foi ao evento no Theatro São Pedro, em Porto Alegre. Embora tivesse vontade de ir, não fui por saber que se tratava de algo essencialmente visual. O ingresso era caro e eu não iria pagar caro por algo que eu sabia que não iria “aproveitar”.

Sabia que havia muitas informações e elementos visuais para serem apreciados, o que iria dificultar minha compreensão.

Hoje, cerca de quatro anos depois, tenho o prazer de contar que finalmente assisti ao espetáculo, contando com um excelente trabalho de AD. Algo realmente profissional feito pela Letícia Schwartz, da empresa Mil Palavras.

Para o bom trabalho de AD a sensibilidade é essencial. E isso a Letícia tem de sobra. É por isso que o trabalho dela é tão impressionante. Ela conseguiu, ao vivo (assistindo ao espetáculo de dentro da cabine onde se faz a tradução simultânea – mas que prefiro chamar de cabine da AD), passar emoção e vivacidade às cenas que descrevia.

Eu e algumas outras pessoas com deficiência visual pudemos entrar mais cedo no Salão de Atos da UFRGS, conhecer os atores, as fantasias e acessórios usados por eles bem de pertinho. Pudemos tocar as fantasias, enfeites, sapatos, botas, chapéus, perucas usados pelos atores, além de conversar com eles. Me apaixonei pela menininha de sete anos, uma das estrelas do evento.

Pudemos nos sentir situados no ambiente, antes mesmo do espetáculo começar.

Depois, sentados na terceira fila, com fones de ouvido (o mesmo aparelho usado para tradução simultânea de palestras em outro idioma) escutamos à AD feita pela Letícia.

Em que momentos a AD foi importante no Tholl?

Através da AD percebi exatamente quais eram os pontos em que eu teria me perdido. Muitas vezes eu via os personagens no palco e os movimentos que faziam, mas não conseguia ver suas feições e expressões de rosto.

A AD é perfeita também para pessoas com baixa visão, pois preenche justamente as lacunas na minha percepção.

Ao colocar, por exemplo, que a menina faz “expressão de triste” pude entender o sentido da cena. Se eu não soubesse a feição de seu rosto, não teria entendido a cena em sua plenitude.

Quando o personagem principal chama duas pessoas da plateia ao palco e se comunica com elas através de mímicas e gestos a AD também foi essencial.

O ator brinca com o cabelo cheio de trancinhas de um dos homens que subiu ao palco, puxa uma das trancinhas e finge que coloca no próprio cabelo. Nesse momento, o público todo riu. Ao mesmo tempo, a AD narrou o que estava acotnecendo e eu pude rir da cena. Seria algo engraçado que passaria batido, sem que eu pudesse me divertir.

É mágica essa sensação de rir, ao mesmo tempo, sem precisar perguntar sussurrando para pessoa do lado por que as pessoas riram.

Cenas muito escuras igualmente eram complicadas. Houve vários momentos em que a iluminação diminuía e os atores dançavam com tochas de fogo. A AD me “salvou” em vários momentos.

São detalhes que não são somente detalhes. Detalhes que, somados, são a essência da peça. O que seria do espetáculo sem as piadas, as coisas engraçadas, as acrobacias, as danças, a beleza dos atores, das cores, das luzes?

Como poderia uma pessoa com deficiência visual apreciar esse espetáculo? Por que a pessoa com deficiência tem que ficar em casa enquanto todos saem para assistir a um evento tão fantástico?

Um espetáculo essencialmente visual, não pensado para pessoas cegas ou com baixa visão. Contudo, nesse momento, tornou-se acessível a mais pessoas.

O Tholl se atingiu um público jamais pensado como seu público-alvo. Pessoas que, muitas vezes, não são lembradas, mas que querem consumir cultura, sair de casa, rir, se divertir, aproveitar a vida.

Hoje penso que fico triste de não ter compartilhado daquele momento com minha família no Theatro São Pedro. Porém, fico feliz em perceber que essa realidade está mudando.

Na saída do evento, os atores vieram conversar conosco. Eu fiz questão de ressaltar a importância da AD e sugeri que o espetáculo a incorpore em todas as suas apresentações.

Num passo adiante, almejo que esse recurso seja algo comum e rotineiro em todos os lugares. Que eu e outras pessoas com deficiência visual não sejamos “exceções” nesses espaços.

Que a nossa presença chame menos atenção do restante do público (por estarmos ali com fones de ouvido e isso gerar curiosidade nos demais). Que todos saibam do que se trata a AD, conheçam, respeitem e incentivem sua ampliação.

É por isso que brinco (mas estou falando sério), que a audiodescrição precisa dominar o mundo!

6 Comentários

  • Eis a inclusão verdadeira: a que não limita, que não impõe barreiras, a que nos prmite estar junto de todos e ter as nossas especificidades contempladas, rir das mesmas piadas, na mesma hora; às vezes – isso é rarissssssimo – fico sem ter o que dizer, no dia do Tholl, foi um desses dias.. na verdade a minha garganta deu um nó.
    Enfim, bela postagem, grande espetáculo, vida eterna e expansiva à audiodescrição

  • Mari! Amei!
    Adorei que vc conseguiu assistir à peça e acompanhar os detalhes…… e muito interessante também o contato que vc teve com os artistas antes…e com as roupas e os cenários!
    Que bom que a AD está alcançando novos caminhos! :)

  • Que delícia ver a audiodescrição proporcionando essa explosão de emoções que pude perceber em seu relato

  • mimi aragón escreveu:

    mari, a partir de agora, toda vez que alguém me perguntar por que eu sou (ou sonho em ser) audiodescritora, vou começar minha resposta citando esse teu relato tão bonito e sincero e comovente. tenho certeza de que a letícia (que é fera mesmo!) concorda comigo: que sorte a nossa poder tocar de verdade o coração das pessoas com o nosso trabalho. parabéns, letícia! e parabéns, mari! vida longa à audiodescrição!

  • Tatiane Soares Jesus escreveu:

    Gostaria muito de ter tido o prazer de assistir esse evento que pela narrativa da Mari me pareceu muito interessante, porém soube que o mesmo aconteceria no dia de sua realização…
    Mesmo nao tendo prestigiado estou muito feliz em saber que os profissionais que organizaram o evento, pensaram nos detalhes que fazem toda a dieferença para quem tem alguma deficiênca visual.
    Espero que ações nesse sentido se propaguem mais e mais e se tornem algo indispensável na rotina de cada atividade que se pretenda realizar.
    Obrigada por relatar o evento Mari, lendo seu texto pude ver as cenas na minha mente e imaginar quão emocionante deve ter sido o espetáculo!
    Parabéns à Letícia Schwartz e sua equipe pela iniciativa, apesar de ainda não conhecê-los!!!
    Tatiane Jesus

  • Marilene Santos escreveu:

    Mari, adorei teu relato e essa vontade de querer perceber e sentir muito mais do que um simples olhar para o espetáculo. Sensacional a preocupação que os organizadores do evento tiveram para com os deficientes (ou nem tanto) visuais. Todos tem esse direito. A divulgação da audiodescrição tem que ser ampliada para que outros sigam esse exemplo. Vou fazer a minha parte. Parabéns Mari pela sensibilidade que tens.

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