O kikito tem sabor de chocolate

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Sempre me senti a última das criaturas em matéria de filmes, discussões sobre cinema, diretores, atores, roteiristas etc. Por ter baixa visão, o ato de ir ao cinema representa um momento estressante e cansativo – um esforço físico e emocional.

Eu bem que tentava compreender os filmes, mas perdia muita informação. As cenas passam rápido, não consigo ler as legendas, não acompanho as mudanças de cenas, os flash backs e os detalhes visuais.

Ainda assim, insistia em ir ao cinema, pois gostava de estar com os amigos ou a família. Em última instância, queria estar incluída nas conversas de bar, nas discussões culturais, nas piadas, em todo o contexto social que envolve o cinema.

Contudo, posso dizer que eu tinha apenas o contato com parte do filme. Eu estava fisicamente na sessão, mas não necessariamente acompanhando o enredo, me emocionando, rindo ou chorando junto com o restante do público.

Em várias ocasiões dormi na sala de cinema. Em outras, ficava entediada durante as duas intermináveis horas da sessão. Olhava o relógio a cada cinco minutos – mas o tempo demorava a passar.

Na tentativa de reverter esse quadro comecei a estudar inglês – para não ter que ler as legendas, pelo menos dos filmes americanos. Meu esforço foi grande. Hoje posso dizer que tenho fluência na língua, entendo e me comunico bem. Porém, o acesso ao cinema não foi resolvido.

Posso entender os diálogos, mas as imagens continuam sendo difíceis. Muitas vezes quando me interessava por um filme tinha que esperar seu lançamento em DVD para assistir em casa, onde posso conversar com as pessoas em volta, perguntar o que não entendia, pausar, rever cenas.

No cinema, o meu acompanhante precisava ficar “explicando” o que acontecia. Ou ainda, depois que o filme já tinha terminado, alguém fazia um breve “resumo” do filme para mim.

Hoje me questiono: que tipo de inclusão é essa? Basta estar fisicamente presente em algum lugar para que a pessoa esteja incluída? Certamente o cinema não se restringe a uma sinopse narrada por outras pessoas.

O cinema é a arte da inserção em outro universo, a vibração com a trama, o sentimento de emoções distintas, o envolvimento com a narrativa. Só compreendi – e senti – de verdade essa dimensão quando passei a viver intensamente o cinema através da audiodescrição.

O longa Colegas, exibido na data histórica de 13 de agosto de 2012, no 40º Festival de Cinema de Gramado, é uma prova de que a audiodescrição veio para ficar e para transformar o mundo. A audiodescrição é uma revolução que não está mudando somente a minha vida, mas a de muita gente.

Com uma plateia de cerca de 50 pessoas com deficiência visual e a sala de projeções lotada, o prêmio de MELHOR FILME para Colegas – único filme exibido com audiodescrição em todo o Festival – veio a coroar um esforço por um mundo mais plural e com novos valores.

Uma vitória de muita gente que, assim como eu, acredita que o cinema deve ser de todos. E não apenas de quem enxerga, escuta, se locomove ou vive dentro de determinados padrões de uma dita “normalidade”.

A audiodescrição, mais do que um recurso, é, para mim, uma filosofia de vida. Um modo particular de enxergar e entender a realidade. Tenho orgulho de ter participado desse projeto – o projeto de um filme campeão, que inclui protagonistas com Síndrome de Down, que apoia a audiodescrição, que permite que todos seus espectadores riam e divirtam-se com a história de personagens que querem realizar seus sonhos de casar, ver o mar e voar.

Um filme campeão em todos os aspectos, antes mesmo de sabermos o resultado da premiação. Um filme que já marcou a história do Festival de Cinema de Gramado por abrir caminho para que mais e mais filmes sejam pensados para todos.

A estreia de Colegas no Festival de Gramado com audiodescrição inverte o estigma do atraso que geralmente envolve as pessoas com deficiência visual. Pessoas cegas e com baixa visão foram tratadas com o devido respeito que merecem.

Tivemos acesso pleno ao filme em sua estreia, na mesma sala de cinema que os demais, no mesmo dia e horário, sem distinções. Fizemos parte desse imenso público que consume cultura, que vai ao cinema, que busca entretenimento e diversão – mas que ainda não é considerado na maior parte das produções culturais.

É uma alegria e um privilégio imenso ter trabalhado como consultora da audiodescrição e na divulgação desse grande evento, ter estado presente (não apenas física, mas emocionalmente) na sessão de estreia do filme e ter feito parte dessa história de transformação da cultura em um patrimônio de todos.

Estou imensamente feliz por ter ao meu lado pessoas tão maravilhosas que fizeram a diferença na história desse Festival, na história da audiodescrição e na ampliação do acesso à cultura para todos.

Para completar o sabor dessa vitória, um carinhoso e merecido presente dado pela amiga e grande audiodescritora Marcia Caspary: um kikito de chocolate diretamente de Gramado para toda a equipe da Tagerellas Produções que trabalhou nesse projeto. Em encontro em Porto Alegre na semana seguinte, nada melhor do que um brinde à audiodescrição e kikitos de chocolate para adoçar a noite.

Na foto, da esquerda para a direita em torno de uma mesa de bar, Mimi Aragon, Kemi Oshiro, Marcia Caspary, Patricia Amaral, Felipe Mianes e Mariana Baierle. Todos sorriem e levantam kikitos de chocolate (do tamanho aproximado de um copo).

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