E a cota do bom senso?

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Atualmente falar em cotas virou assunto da moda. Existem cotas para tudo. A UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), por exemplo, instituiu cotas para quatro grupos – negros, indígenas, estudantes de escola pública e pessoas com deficiência.

Olho perplexa para esse quadro e fico me perguntando: com tantas cotas assim, quem são aqueles ditos “normais” ou “comuns”? Quem são os sujeitos que não se incluem em cotas?

A chance da mesma pessoa pertencer a um ou mais desses grupos é imensa, pois eles abrangem um espectro bastante representativo da sociedade.

Segundo aqueles que defendem as cotas em universidades, a intenção é suprir uma demanda de supostas “minorias” que não seriam contempladas pela forma de seleção e ingresso tradicional na universidade.

Fico pensando na quantidade de grupos e segmentos sociais existem e que também se dizem minoritários, mas não estão contemplados nessas quatro categorias estipuladas pela UFSM. Mulheres, pessoas com baixa renda, homossexuais, pertencentes a determinadas religiões e crenças, integrantes de movimentos sociais, sindicatos ou partidos políticos, pessoas de diferentes etnias e origens raciais etc etc.

Há uma infinidade de grupos e subgrupos que poderiam ser listados e reivindicar igualmente o direito a cotas por se considerarem excluídos.

Já cheguei a escutar lamentavelmente alguns estudantes defendendo cotas para mulheres grávidas ou com filhos de até três anos. Na minha opinião, um absurdo.

Até onde vamos continuar segmentando a sociedade? A cada dia e momento de nossas vidas pertencemos a determinados grupos e contextos dentro da sociedade.

Daqui a pouco não sobrarão os “comuns” – aqueles que não se encaixam em cotas. Na medida em que elencamos tantas “minorias”, falta perguntar: afinal, então quem são as “maiorias”?

Que tal cotas para gremistas e colorados? Ou para amantes de gatos, de cachorros, de peixes, de passarinhos e para os que não toleram animais? Ou ainda, para quem gosta de filmes de comédia, ficção científica e drama (e, no meu caso, para os amantes de filmes com audiodescrição)?

Estou levando a situação ao extremo, mas no meu entendimento é uma falta de bom senso esse processo de segmentação constante. Garantir cotas para determinados grupos abre precedente – e com razão – para que outros reivindiquem também o direito a cotas.

Tal situação me parece esquizofrênica. Às vezes penso que estamos perdendo o limite da racionalidade. Nesse ritmo vamos continuar segmentando a sociedade rumo ao infinito, jamais haverá um fim.

Não sobrarão aqueles cidadãos “comuns”, que não entram em cotas. Todos pertencerão a alguma “minoria”. Eis ai, mais uma esquizofrenia da nossa sociedade: minorias que rapidamente se transformarão em maioria. Aliás, na minha visão, com tantas “minorias” que temos hoje, elas já representam a maioria.

Quem sabe não está na hora de parar de segmentar o mundo – visto que é uma tarefa que tende ao infinito – e instituirmos a cota para o bom senso?

2 Comentários

  • Como escreveu Deleuze: as minorias são tão numericamente maiores, que chegam a ser maiores que as maiorias. Acho que as cotas são um atestado assinado pelo Estado, de sua própria incapacidade. Ah claro, se tiver cota pros amantes da audiodescrição, to dentro!

  • Rosely Baierle Soares escreveu:

    Concordo com o comentário acima,do Felipe, quando cita Deleuze e que as cotas são um atestado assinado pelo Estado, de sua própria incapacidade.Eu sou do grupo que defende a melhoria, a seriedade, a gestão competente da educação básica. Quando todos chegarem ao final do segundo grau com a formação básica sólida, não haverá necessidade de cotas, todos terão condições iguais de participar do mercado de trabalho e disputar uma vaga em qualquer universidade. Mas, com os políticos despreparados que elegemos, que são frutos desta má formação, aos quais convêm perpetuar a baixa qualidade na educação, é mais fácil o paternalismo, criando cotas e bolsas para tudo.

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