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VAQUINHA PARA VIABILIZAÇÃO DO LIVRO “MATERNIDADE E DEFICIÊNCIA VISUAL: DO SONHO AO NASCIMENTO DE NATÁLIA” (por Mariana Baierle)

Caras amigas, amigos, leitoras e leitores!

Foi com muito esforço e dedicação que terminei de escrever e revisar o livro “Maternidade e deficiência visual: do sonho ao nascimento de Natália”. Sem falsa modéstia acredito que o conteúdo está muito legal e você vai gostar. Você vai rir, vai chorar, vai se emocionar com todo o processo que envolveu a chegada de nossa filha amada.

No livro relato desde a vontade de engravidar, a descoberta do teste positivo, a gestação como um todo e o início de nossa nova vida, minha e do meu marido Rafa, como mamãe e papai dessa menina encantadora que veio para encher de amor e alegria as nossas vidas. Sou eu uma mamãe de primeira viagem, com cerca de cinco por cento de visão, meu marido também com deficiência visual. Todo o último trimestre de gestação, o nascimento e início da vida da filhota são permeados pela pandemia do Corona Vírus que assola o Brasil e o mundo. Você pode imaginar que os percalços desse processo todo não são poucos.

Relato na obra as situações emocionantes que vivemos; as dificuldades, expectativas e desafios; o isolamento social; o cancelamento do chá de fraldas, das visitas na maternidade e na nossa casa; as mudanças na minha condição de apenas filha para a de mãe; os preconceitos e estigmas enfrentados em função da deficiência visual; as adaptações que são necessárias ao longo da gestação e após o nascimento; a falta de acessibilidade para um casal com baixa visão desde o momento de ir para o hospital ganhar a filhota; as angústias, aflições e o turbilhão hormonal que toma conta da mãe; as mudanças físicas e psicológicas, entre uma infinidade de temas que perpassam esse momento ímpar da minha vida.

Enfim, o tema da maternidade por uma mãe com deficiência visual é algo que gera tabus e muitos preconceitos. O livro promove esse debate e esclarecimento a partir da minha própria vivência, mas traz angústias e conflitos comuns também a outras mulheres que passam por situações semelhantes.

Após muita pesquisa já decidi a editora que será parceira e abraça esse projeto lindo comigo. A obra, que já está prontinha para ser enviada para publicação, será lançada pela Editora Gregory (www.editoragregory.com.br), de São Paulo. Terá cerca de 230 páginas. Tem prefácio escrito pela jornalista, professora e minha amiga Gladis Maia. Estará disponível nas versões impressa e digital.

A previsão de lançamento é para o primeiro semestre de 2021, ainda sem data definida porque inicialmente necessito juntar grana para o investimento. Ai é que chego no ponto crucial dessa empreitada. Você que me lê e ficou curiosa ou curioso com o livro e gostaria de me auxiliar a realizar esse sonho pode fazer a diferença para que esse projeto saia do papel, comprando antecipadamente um exemplar da obra.

Não tenho nesse momento como arcar com os custos do investimento para publicação e, por isso, o apoio das pessoas queridas que me acompanham vai fazer toda a diferença. Se você tem um familiar, amiga ou amigo que possa presentear, aproveite para adquirir um exemplar antecipadamente também, contribuindo com essa corrente para que o quanto antes possamos ter a publicação disponível.

COMO POSSO ADQUIRIR UM EXEMPLAR ANTECIPADAMENTE E AUXILIAR A VIABILIZAR O LIVRO?

É bem simples: com R$45,90 (quarenta e cinco reais e noventa centavos) você adquire um exemplar antecipado do livro “Maternidade e deficiência visual: do sonho ao nascimento de Natália”. Assim que a obra ficar pronta você a receberá autografada em casa. Esse valor é promocional para a compra antecipada, já incluindo as despesas postais para envio para qualquer lugar do Brasil. E, acima de tudo, estará me ajudando para que o título não fique na gaveta e toda essa história repleta de muito amor e desafios possa ser compartilhada com mais e mais pessoas.

Vou receber os pagamentos preferencialmente através do Pix em minha conta, cuja chave é “51 98433 7368”. Você faz o pagamento e na sequência envia para o meu email tresgotinhas@gmail.com o seu nome completo, comprovante, o dia e horário do pagamento, o endereço e CEP para recebimento da obra. Caso o pagamento pelo Pix tenha sido feito por outra pessoa, por favor informe também no email o nome de quem depositou para que eu possa identificar você. No título do email coloque apenas o seu nome completo.

Caso não utilize o Pix e deseje fazer o pagamento por transferência bancária, entre em contato também por email para que eu forneça os meus dados bancários.

O livro será enviado, autografado pela autora, pelos Correios ainda no primeiro semestre de 2021 para o endereço que você indicar. Através do meu blog (www.tresgotinhas.com.br) você ficará sabendo todas as novidades sobre quando eu atingir o valor necessário para viabilização da obra, previsão de lançamento, data de envio para os apoiadores, eventos e debates envolvendo o livro etc.

A AUTORA

Para quem não me conhece, meu nome é Mariana Baierle. Sou jornalista pela PUCRS, mestre em Letras pela UFRGS. Tenho 35 anos, sou ativista no segmento das pessoas com deficiência, apaixonada pela literatura e escrita. Atuo como técnica-administrativa no Instituto de Letras da UFRGS, realizo consultoria em audiodescrição, edito o blog Três Gotinhas, sou autora e organizadora do livro Histórias de Baixa Visão. Estou ansiosa pela publicação de minha nova obra. Tenho uma doença degenerativa na retina chamada retinose pigmentar e atualmente tenho cerca de cinco por cento de visão.

Desde já agradeço imensamente a todas e todos que me auxiliarem nessa jornada pelo nascimento desse lindo projeto. Tenho certeza que irão mergulhar em uma prazerosa leitura! Um forte abraço

DO SONHO AO NASCIMENTO

Quero compartilhar com você, querido leitor, uma grande novidade. Para quem ainda não sabe, o sonho de ser mãe se concretizou na minha vida. Isso mesmo, minha filha Natália nasceu no dia 10 de junho desse ano. Ela é linda e está com quase quatro meses. Você deve imaginar também que a correria anda enorme e por isso, a dificuldade em manter o blog atualizado.

Mas desde o início da gestação não deixei de escrever. Essa é a segunda grande novidade. Desde que descobri que estava grávida em outubro do ano passado comecei a escrever um grande relato que irá em breve ser publicado em livro.

Nas cerca de 160 páginas falo sobre o sonho da gestação, a gravidez em si, o acompanhamento pré-natal, minha deficiência visual e a decisão de ser mãe, as adaptações necessárias em minha rotina e na preparação para a chegada da nenê, os preconceitos enfrentados já desde o início da gestação, os maiores desafios etc. Tudo isso em um contexto em que parte da minha gestação foi permeada pela pandemia do Corona Vírus e pelo isolamento social. O chá de fraldas, as visitas na maternidade e na nossa casa não puderam acontecer.

A filhota nasceu forte e saudável em meio a esse contexto adverso que o mundo enfrenta. No livro conto também os receios com relação a ganhá-la nesse período, os auxílios que eu e meu marido (que também tem deficiência visual) recebemos, entre outros aspectos. Então a obra é permeada por todos esses pontos, o que acredito que sejam pautas que chamem atenção de leitores que queiram conhecer realidades diversas enfrentadas durante o isolamento social, além de detalhes da preparação de uma mamãe de primeira viagem com deficiência visual para a chegada de seu maior tesouro.

Estou em fase de revisão final do livro antes de enviá-lo para publicação. Como ainda não fechei o título, a editora e data de lançamento, vou deixá-lo na curiosidade e trarei mais informações sobre tudo isso em publicações posteriores. Para não dizer que não publiquei nenhum trechinho da obra aqui no Três Gotinhas, separei um capítulo inteiro para brindar quem me acompanha por aqui. O capítulo que publico abaixo foi escrito em fevereiro deste ano, ainda antes da pandemia assolar o Brasil, quando minha vida ainda seguia uma rotina relativamente “normal”.

Na metade do segundo trimestre da gestação entramos em quarentena e passei ao trabalho remoto. Embora na época acreditasse que poderia voltar ao trabalho presencialmente antes da licença-maternidade, logo percebi que isso seria impossível e estou em casa, no fim das contas, desde março deste ano.

Tomara que vocês gostem do capítulo e a curiosidade pelo texto completo fique aguçada. Boa leitura!

LEITURAS E DIVAGAÇÕES

Durante o feriadão de carnaval no final do mês de fevereiro, quando eu já estava com vinte e quatro semanas de gestação, resolvi dar um tempo para minha mente e pensamentos até então completamente absortos no universo da maternidade e buscar uma leitura diferente.
Estava um pouco saturada de assistir vídeos, podcasts e comentários exclusivamente sobre amamentação, quartinhos de bebê, fases do desenvolvimento da criança, entre outros tópicos relacionados.

Todos esses temas eram de imensurável interesse desde o início da gestação, mas confesso que em determinado momento começava a achar tudo um pouco enfadonho e me questionava se eu estaria perdendo minhas outras identidades, gostos, características e personalidade.

Sabia racional e conscientemente que não, que seria a mesma mulher, acrescida agora de uma identidade a mais, pois me tornava também a mãe da Natália. Contudo, a maternidade era uma novidade tanto para mim quanto para os outros na relação comigo.

Percebia, de forma bastante nítida, que as pessoas somente puxavam assuntos comigo relacionados à gestação, aos preparativos para a chegada da nenê, sobre como seria o parto etc. Eram pautas inevitáveis e geralmente adorava conversar sobre isso.

Entretanto, eu continuava fazendo as mesmas coisas de antes: trabalhava, me preocupava com minha vida profissional e como seria dali para frente, saía de casa, tinha grupos de amigos, família, marido, casa para administrar, exercícios físicos para fazer, conta bancária e preocupações diversas. Assim, considerava um pouco estranho não conversar mais sobre assuntos que costumava falar anteriormente, tendo em vista que os outros aspectos da minha vida seguiam, na medida do possível e com algumas adaptações, como antes.

Nessa fase lembrei muito do que conversei certa vez com uma amiga sobre essas inquietudes e divagações. Ela dizia que parecia que tinha deixado de ser ela mesma por um tempo, que durante a gestação e nos primeiros meses do nenê ninguém se referia a ela com os mesmos assuntos que se referiam anteriormente, que inclusive no seu próprio aniversário davam presentes para seu bebê e queriam o tempo todo paparicar o filhote.

O fato dos amigos e familiares demonstrarem afeto pela criança era ótimo, mas seria fundamental também a manutenção da boa autoestima da mãe. Se a mulher não tivesse bem consigo mesma também não conseguiria cuidar do bebê com a dedicação e o zelo que precisava. Dar conta e ter espaço para os outros aspectos da vida era saudável e necessário.

Naquele momento as palavras da minha amiga caíam como uma luva para representar tudo o que eu sentia. Certa noite, sem entender bem o porquê, chorei desenfreadamente. Chorei como uma criança, talvez porque tivesse muitos medos e angústias sobre como seria a sensação e a responsabilidade de cuidar de uma criança.

Talvez por sentir que deixava minha posição de filha de vez para trás e agora eu era mamãe.

Talvez porque tudo aquilo que eu desejara muito estivesse acontecendo e eu não soubesse ainda como lidar.

Talvez porque eu mesma esperasse muito de mim naquele momento, me cobrava respostas e até uma experiência que eu não tinha.

Talvez porque eu quisesse demonstrar força e segurança, me esforçando para encobrir meus medos dos outros e de mim mesma.

Talvez porque eu tivesse medo de não dar conta de alguns outros projetos profissionais que eu tinha idealizado, como o plano de fazer um doutorado, que havia sido temporariamente suspenso.

Talvez , e este talvez tenha sido o maior motivo, por ficar me perguntando se eu seria uma mãe à altura das necessidades e demandas da Natália.

Chorei desenfreadamente por umas duas horas. Foi uma catarse que limpou minhas angústias e ajudou a relaxar um pouco de tantas tensões e preocupações. Sabia que eu era exigente demais comigo mesma, queria que tudo ocorresse perfeitamente, mas tinha consciência que a maternidade não seria algo que eu pudesse controlar ou prever. Teria de passar por contratempos, imprevistos e me adaptar às diferentes situações.

Sentia um turbilhão de emoções mexendo comigo. Era o corpo se transformando o tempo todo. Eram as roupas que não cabiam mais. Era a minha mente que não funcionava mais como antes. Agora eu estava o tempo todo me preocupando com tudo e pensando como eu faria as mesmas coisas de antes com uma bebezinha.

Aliás, será que eu conseguiria fazer as mesmas coisas? As mudanças eram biológicas e hormonais. Não poderia ir contra isso, sabia que faziam parte do processo. Ainda assim, era difícil e traziam uma série de desafios inclusive psicológicos.

Apenas naquele período da gestação havia entendido com profundidade o significado e a dimensão das sensações descritas por minha amiga, que passaram a tocar minha alma. Ela me contou, naquela conversa, que acreditava que o fato da mãe sentir-se em segundo plano nas relações sociais em parte era natural, porque era sem dúvidas uma mudança radical na vida de qualquer mulher e biologicamente a própria mãe sempre colocaria seu filho como prioridade.

Mas o importante era que depois de um tempo as coisas começariam a se encaixar novamente. Ela não sabia dizer muito bem como e quando, mas a vida adquiria uma nova rotina e uma nova dimensão – muito mais intensa, feliz e gratificante.

Aos poucos minha amiga disse que foi possível retomar as atividades, projetos e hábitos que tinha antes, com seu bebezinho um pouquinho mais crescido. Eu tinha minhas inseguranças e questionamentos, mas tinha convicção que isso ocorreria comigo também.

Lembrar daquela conversa era, de alguma forma, reconfortante e alentador, me passando uma injeção de segurança e ânimo por não estar sozinha naquele mar de novidades. Como já comentei anteriormente, eu estava com os hormônios à flor da pele. Tudo era motivo para eu me emocionar, era uma manteiga derretida com qualquer programa de TV, filme, assunto mais emotivo e principalmente nas relações sociais.

Às vezes uma pequena fala em tom mais alto ou uma pessoa discordando de mim já eram razão para eu me aborrecer. Me sentia em uma espécie de TPM constante. Meu humor era como uma montanha-russa, acordava feliz e tranquila, passava o dia bem, mas ocorria um fato qualquer e era como se toda minha vida fosse acabar ou não fizesse mais sentido. Um tanto dramática. Um tanto intensa. Um turbilhão de emoções.

Uma briguinha ou discussão pequena transformavam-se rapidamente em uma grande crise existencial. Quem mais sofria com isso naquele momento era meu marido Rafael. Ele era a pessoa mais próxima e muitas vezes eu acabava descontando meu estresse nele.

A busca por uma leitura diferente naquele feriado de carnaval, que ficaria em casa era, na verdade, uma grande e simbólica tentativa de resgatar meus gostos pessoais. Um deles era o amor pela literatura, pela leitura, pela poesia e pela descoberta de novos autores e histórias.

Buscava uma literatura leve e estimulante para passar o tempo. Baixei então no tablet o livro “Cem Dias Entre Céu e Mar”, de Amyr Klink, que foi bastante assertivo para aquele propósito. Minha leitura era, na verdade, uma escuta, pois dependia do leitor de tela. Nesse sentido, acabava sempre ficando refém dos livros em formato digital – que felizmente hoje estão bem mais difundidos.

A voz que lia o livro para mim era um som sintetizado, que atualmente também era muito mais agradável ao ouvido do que já fora anos atrás. Atualmente é possível inclusive o usuário escolher a voz que lhe agrada mais. É através dos leitores de tela que utilizo o computador, o tablet e o celular. Hoje com a tecnologia acesso minha conta bancária, aplicativos de mensagens, redes sociais, livros, sites, notícias, fóruns, contatos telefônicos, emails, blogs, podcasts, etc.

Embora nem todos os sites sejam bem feitos e planejados para serem utilizados com o leitor de tela, o acesso de quem tem deficiência visual ao mundo da tecnologia já é revolucionário na comparação a uma década atrás e nos traz uma autonomia imensa. Não apenas para as diversas situações cotidianas que já mencionei, mas também para nos colocarmos no mercado de trabalho e termos uma vida profissional ativa.

Sobre o livro em questão “Cem dias entre o céu e o mar”, em pouco tempo devorei a obra, que é imensamente prazerosa. Trata-se da história real da viagem de Amyr em um pequeno barco a vela, sem nenhum outro tripulante, no ano de 1984. Ele detalhava a epopeica e desafiadora missão a que se propôs desde o porto de Luderitz, na Namíbia, até a praia da Espera, em Salvador, na Bahia.

Eu, que sempre fora apaixonada por água e pelas belezas da natureza que envolviam mar, lago, praia ou cachoeira, fui fisgada intensamente pela poesia e riqueza de detalhes que permeavam a trama.

Ao lermos o título da obra ou qualquer sinopse da mesma, já tínhamos uma boa ideia acerca do enredo. Entretanto, a narrativa concentrava-se em todos os aspectos que envolviam a navegação, desde o planejamento do barco, da rota, o estudo das correntes marítimas e as condições climáticas, o porto de partida e o porto de chegada, passando por todas as aventuras em alto-mar.

Amyr revela uma capacidade incrível de resiliência e de contorno das adversidades do percurso. Enfrentar tempestades, tubarões, peixes dourados, baleias, sol excessivo e até o capotamento do barco. Sabia como ninguém como lidar com os percalços de sua expedição, revelando-se um sábio e experiente navegador. Ademais, o viajante demonstrava um preparo psicológico imenso para passar cem dias em alto-mar, lidando com a solidão e com a passagem vagarosa do tempo de forma admirável.

O protagonista torna-se parte integrante do ecossistema que o cerca, conversando com os peixes, gaivotas e golfinhos que o acompanhavam, compreendendo seus hábitos, interpretando os sinais e comportamentos dos animais, das nuvens, do vento e das próprias ondas do mar. Passava a classificar e a nomear as ondas conforme sua intensidade e a maneira como atingiam a embarcação.

O livro é um grande poema que dança sobre as ondas dos oceanos, festejando o mar e as forças da natureza. Ao chegar à Praia da Espera, em Salvador, Amyr Klink resumia a certeza que tomava conta de sua existência: “Descobri que a maior felicidade que existe é a silenciosa certeza de que vale a pena viver”.

Apesar de eu ter buscado essa leitura por querer ler e pensar em pautas diferentes do universo infantil e da maternidade, ao terminar o livro ficava muito evidente a relação que fiz com um artigo que tratava justamente sobre as crianças de hoje em dia. Intitulado “Ninguém cresce sozinho”, de autoria de Patrícia Grinfeld.

O texto fala que “em um mundo de processados, a criança não aprende mais o que é processo”. Tratava-se de uma crítica ao estilo de vida contemporâneo e à industrialização exacerbada, em que as crianças não participavam da elaboração ou feitura de seus próprios brinquedos e brincadeiras, acostumando-se à dinâmica em que recebiam produtos prontos das mãos dos adultos.

Elas não têm, segundo o artigo, envolvimento com a criação, alienando-se de seus processos e acostumando-se a um mundo em que encontram tudo pronto. Não é raro nos depararmos com crianças que não sabem que uma casa é feita com tijolos, cimento e outros materiais, que um bolo leva farinha, ovos, açúcar ou que o leite não sai da caixinha do supermercado.

Nesse sentido, acabava me identificando muito com a ideia da autora de que as crianças precisam aprender sobre os processos da vida, de elaboração das coisas e que tudo tem seu tempo para ser processado e confeccionado. Em última instância, tudo teria um momento para ser digerido, sentimentos para serem sentidos, estresses para serem enfrentados, aprendizados para serem elaborados. Era importante aprender com os processos, que poderiam estar relacionados a materiais físicos ou a questões comportamentais em geral.

Lembrei inclusive de algumas atividades que eu fazia quando criança na escolinha, em que os professores solicitavam que levássemos material de sucata para confeccionarmos brinquedos. Caixas de sapato, garrafas pet, tampinhas, pastas de dente vazias, rolos de papel higiênico, retalhos de lã e de tecido, copinhos de iogurte, embalagens e sacolas diversas eram matéria-prima para uma infinidade de itens, como aviõezinhos, carrinhos, bonecas, prédios, ruas e até cidades inteiras.

Após a construção de nossos brinquedos com as sucatas, era preciso esperar muitas vezes a cola ou a tinta que usávamos para colorir, secar. Aprendíamos a respeitar o tempo necessário para podermos de fato brincar com nossas produções, que nos enchiam de orgulho e alegria. Era um momento de expectativa e que trazia grande aprendizado sobre os processos envolvidos.

Rememorava essas atividades da infância com nostalgia e saudosismo. Inclusive comentei com o Rafael que queria muito brincar com a Natália de montar e criar brinquedos utilizando coisas simples do dia a dia que jogamos fora no lixo seco. Faremos uma grande oficina de criação de brinquedos em casa!

Eu, na verdade, em muitos aspectos me identificava com a educação “à moda antiga”, se é que poderia chamar assim. Eu era contrária, por exemplo, ao excesso de celular, tablets, televisão, computador e videogame para as crianças. Sabia que não poderia impedir Natália de ter contato com a tecnologia e que inclusive era importante que aprendesse, mas eu era contra entreter os filhos o tempo todo com esses recursos como ocorria em muitas famílias.

A partir do texto de Patrícia Grinfeld e do livro de Amyr Klink pude repensar sobre os diversos processos da vida. A leitura da obra de Klink foi para mim emblemática, porque demonstrava a busca não apenas pela linha de chegada ao litoral baiano, mas o sabor da viagem, das aventuras e de cada etapa que constituíram a imensa travessia.

O artigo de Patricia evidenciava a importância dos processos, fundamentalmente na infância, mas que se aplicavam para a vida toda. No fim das contas, fui buscar novas leituras com o intuito de pensar em outros temas além da maternidade, mas percebi que talvez essa tarefa já não fosse mais possível. Natália já fazia parte de cem por cento da minha vida, crescia literalmente dentro de mim. Fazia parte integral do meu coração, sentimentos, pensamentos e preocupações.

Percebi então que todos os meus olhares, objetivos e sensações já estavam voltados para a Nati. Depois que ela nascesse e nós duas já estivéssemos adaptadas à sua vida fora da barriga, eu iria resgatar meus antigos hábitos, rotinas e características, sempre ajustando-os e somando-os aos cuidados e atenção com ela.

Talvez nada jamais seja novamente como antes – e que bom que as coisas mudam e estão sempre em transformação! Todas as minhas leituras e indagações dali para frente seriam inevitavelmente permeadas por essas pautas. E isso representa uma nova perspectiva de vida, com uma nova dimensão e significado.

A vida não é uma linha de chegada, mas um processo. Meu foco dali em diante não seria ver a Natália formada na faculdade, trabalhando e com sua própria casa – embora, sim, eu fosse torcer por isso e pelo sucesso dela – mas sim era vivenciar e aproveitar cada etapa, desde os primeiros mesinhos de vida, cada descoberta, cada palavra pronunciada, cada sílaba aprendida, cada sorriso. Queria curtir suas gargalhadas, os primeiros dentinhos, os primeiros passos, as brincadeiras e descobertas, tudo deveria ser saboreado a seu tempo.

Era engraçado, e ao mesmo tempo surpreendente, mas eu – que sempre fora muito ansiosa – não estava querendo apressar a gestação. Quando me perguntavam se eu estava doida para que a bebê nascesse, dizia que estava tranquila com a espera. Possivelmente porque quanto mais o tempo passasse devagar, mais calma eu teria para me preparar para sua chegada. Talvez porque eu ainda tivesse uma série de coisas na casa e em minha própria cabeça que eu queria arrumar para me sentir mais tranquila e preparada.

Muitas mães me diziam para curtir a fase da gestação e da barriga grande porque depois eu teria saudades. Me olhava no espelho e me sentia linda. E nossa, nove meses parecem muito tempo, mas quando estamos vivenciando uma série de mudanças e transformações esse período parece voar. Por isso, queria dar tempo ao tempo, respeitando o desenvolvimento da nossa Natália e também a minha transformação e do Rafael como mãe e pai dela.

PARA MUITO ALÉM DA MAQUIAGEM

Sou jornalista e durante algum tempo trabalhei em televisão com reportagem e apresentação de um programa. Era uma espécie de pré-requisito para aparecer no ar estar completamente maquiada. A maquiagem para TV tem a particularidade de que precisa ser forte, bem intensa, pois o rosto fica bastante exposto pelas câmeras e qualquer imperfeição na pele acaba sendo potencializada. A emissora que eu trabalhei era pública e não contava com um maquiador, então era os próprios profissionais que se arrumavam para entrar no ar.

Como minha visão não propicia enxergar detalhes, aprendi essa lição sobre a quantidade e intensidade de maquiagem de forma, no mínimo, inusitada. Um dia iria fazer uma espécie de teste, um programa-piloto, para saber se eu iria ficar na apresentação de um programa ou não. Ciente de que teria que estar maquiada, acordei mais cedo e antes de sair de casa pedi que minha mãe fizesse uma maquiagem em mim. Como eu não era uma pessoa acostumada a me maquiar, ela fez algo simples, sem carregar em nada. O problema é que acabou ficando uma maquiagem discreta demais para os padrões televisivos. Quando cheguei lá, certa de que estava pronta e linda para o teste, minha chefe na época perguntou:

- Quando tu vai te maquiar?

Com vergonha de dizer que já havia me maquiado e com receio de que não tivesse ficado boa, pensei rapidamente em uma resposta e disse:

- Pois é, para mim é complicado me maquiar, vou pedir ajuda para alguma colega.

E foi o que fiz. Foram várias repórteres e produtoras que se voluntariaram para me ajudar nesse primeiro dia. E o mais fantástico é que deu tudo certo no teste e eu fui muito elogiada. Mesmo sem ler o teleprompter (aquele equipamento que fica passando o conteúdo para o apresentador ler). Também não enxergava as câmeras. Os colegas do estúdio foram fantásticos me indicando com um estalar de dedos o momento de começar cada bloco e indicando com um papel branco a direção para qual eu deveria olhar. Isso porque o papel branco se destacava mais, no estúdio. As câmeras eram escuras e não tinham contraste com o fundo preto das paredes almofadadas do estúdio. Foram o Chiquinho e o Polga duas das pessoas mais especiais que me acompanharam nesse período de estúdio.

Para quem pensa que as soluções de acessibilidade e inclusão tem que passar pela aquisição de equipamentos caros e sofisticados vale destacar que foi uma simples folha branca de papel a solução para resolver a questão do meu direcionamento. Algumas vezes abria o programa olhando para uma câmera, tinha que virar para o entrevistado, fazer a pergunta e depois olhar para outra câmera. Se não tivesse o papel branco na nova câmera eu certamente ficaria perdida procurando para onde olhar. Com essa solução simples resolvemos toda a questão de posicionamento no estúdio. Acho inclusive que o fato de eu não ficar presa ao teleprompter, como acontecia com os demais colegas, me deixava mais desinibida e espontânea.

Somado a isso havia o fato de que eu não podia contar com as letras externas escritas no telepronpter para eu ler e saber o que deveria dizer ou perguntar ao entrevistado. Então todo o conteúdo do programa deveria estar na minha mente, o que fazia eu me preparar muito antes de entrar no ar e iniciar o programa – que não era uma gravação, era uma transmissão ao vivo. Chegava a brincar que tinha um teleprompter na mente e ficava imaginando as letrinhas passando na minha frente enquanto apresentava.
A abertura do programa, o nome dos entrevistados, tudo eu acabava sabendo de cor. Havia o ponto eletrônico no meu ouvido que muitas vezes me soprava informações importantes, mas eu precisava estar focada em conduzir as entrevistas para que os convidados pudessem se expressar e sentirem-se a vontade para isso. Muitas vezes precisava um pouco de psicologiae jogo de cintura porque os convidados não se sentiam à vontade em frente Às câmeras ou era a primeira vez que davam uma entrevista.

Comecei a apresentar o programa semanalmente e por alguns períodos apresentei diariamente. No início uma das coisas que me deixava insegura era o tema da maquiagem e como iria resolver a questão. Acabei optando por contar com a ajuda de colegas para me arrumar antes de qualquer gravação ou entrada ao vivo. Com o tempo, uma amiga que era estagiária na época e duas colegas foram me encorajando e me dando dicas para que eu pudesse fazer em mim mesma (Obrigada Kathlyn, obrigada Amanda! Obrigada Lirian!).

Fui praticando diariamente, então aos poucos aprendia e ganhava confiança nesse campo da maquiagem, até então desconhecido. Passei a memorizar as testuras das bases, pós e iluminadores, sombras etc. Decorava nas caixinhas qual era a ordem de passar cada coisa, qual a posição de cada item que iria usar. No início fazia com a ajuda delas, depois comecei a fazer sozinha. Mesmo assim, sempre pedia para conferirem para mim, pois com a minha baixa visão nunca conseguia saber se tinha algo borrado, se algo não tinha ficado uniforme, se havia caído alguma coisa na minha roupa, se o cabelo estava bom, entre uma infinidade de dúvidas.

Com o tempo elas já apenas esperavam eu me arrumar toda e ficavam esperando para a conferência final. Geralmente tinha uma ou outra coisinha para ajeitar, mas a grande produção era feita por mim.

Trabalhei durante seis anos para a Fundação Piratini, mantenedora das emissoras TVE e rádio FM Cultura. Durante um período eu apresentava o programa Cidadania. Em outros momentos fazia reportagens no telejornal da TVE e no TVE Repórter. Por fim, trabalhei na rádio FM Cultura também. Foi um tempo bom e que deixa saudades dos tempos áureos desses dois veículos, tendo em vista que a Fundação Piratini, com muito pesar, foi extinta pelo governo do Estado do RS. De qualquer forma, assim como os programas que produzimos e as pautas que realizei sei que os dois veículos deixaram suas marcas positivas na formação da audiência, bem como na formação cultural e educativa da sociedade.

Foi durante o período que trabalhei lá que conheci uma das pessoas mais especiais da minha vida, meu marido Rafael. Nos aproximamos, aliás, em uma reportagem, na qual ele foi meu entrevistado. Fui fazer uma matéria sobre paradesporto. A modalidade escolhida foi a vela adaptada. Ele tem baixa visão e junto com colegas cadeirantes, com mobilidade reduzida ou com algum membro amputado praticavam vela adaptada em Porto Alegre, que é banhada pelo lago Guaíba.

Naquela oportunidade eu e o Rafa já estávamos interessados um no outro e gravar a entrevista com o grupo foi um motivo para nos encontrarmos. O Rafa, com seu desprendimento e ousadia, chegou a roubar o microfone da mão da repórter no final da entrevista e disse que iria me entrevistar. Fiquei completamente envergonhada e aquela entrevista foi o primeiro passo para darmos prosseguimento nas nossas conversas e início do namoro. Mas o que eu queria contar sobre ele está relacionado ao tema inicial deste relato, que é a questão da maquiagem.

Desde a adolescência, quando conhecia um carinha interessante na escola, faculdade ou em algum outro ambiente, me preocupava muito se ele iria se interessar por mim porque naquela época não costumava me maquiar, nem mesmo fazia coisas diferentes no cabelo. Quando tinha uma festa ou evento especial pedia sempre auxílio para minha mãe ou alguma amiga. Na adolescência não usava bengala, mas no início da fase adulta comecei a usar porque minha visão estava pior. Outra dúvida que me questionava é se os homens iriam se interessar por uma mulher com bengala e com deficiência visual.

Durante muito tempo carreguei essa insegurança e escondia a bengala, mesmo cometendo algumas gafes. Era como se eu precisasse me aproximar muito da pessoa para lhe contar uma espécie de “segredo”, que era o fato de que eu tinha baixa visão. Disfarçava o máximo que podia as dificuldades de enxergar, sempre me aproximando devagar dos objetos e das pessoas, evitando os restaurantes buffets que sempre foram mais complicados por não identificar as comidas, caminhando cautelosamente, olhando para o chão para não cair e até seguindo as pessoas na rua para saber o caminho por onde deveria andar. Com o Rafa isso ocorreu de forma diferente, pois o fato de eu ter deficiência visual acabou nos aproximando mais e trazendo muitos assuntos em comum.

Quanto à maquiagem, ele acabou quebrando todos os meus próprios paradigmas e preconceitos. Um dia ele me disse que gostava mais de mim sem maquiagem porque podia sentir o cheiro da minha pele e o meu perfume ficava mais intenso. Quando eu estava maquiada depois de sair da TV eu tinha muito pó e coisas artificiais no rosto, podendo até manchar sua roupa conforme nos abraçávamos. Ele afirmava sempre que eu era linda ao natural e que até a textura do meu rosto não era a mesma com a maquiagem. Além disso, o próprio cheiro da maquiagem e da base eram artificiais.

Sei que essas observações dele têm relação com o fato de que ele também tem baixa visão e provavelmente não percebia a diferença da minha aparência com a maquiagem. Mas isso me fez pensar sobre as diferentes formas de beleza e sobre a sensibilidade desenvolvida por pessoas com deficiência visual. Aspectos que são importantes para os outros talvez não tenham a mesma relevância para nós. De alguma forma ele falar isso foi libertador. Na verdade os aspectos que são importantes para uma pessoa não necessariamente são importantes para outra. E no caso de pessoas com deficiência visual a beleza poderia ser percebida de diferentes maneiras.

Dessa forma, começamos a namorar e eu pensei que ao invés de me preocupar com a maquiagem devia me preocupar mais com os perfumes que usava. Foi então que fui ainda mais surpreendida – e acho que esse é o segredo da nossa relação. Tinha vários perfumes, mas sempre um era meu favorito. Foi quando percebi que mais de uma vez ele disse que adorava o meu perfume. Mas para meu espanto dizia isso justamente em dias que não estava com perfume nenhum, o que me deixava ainda mais intrigada. Falei para ele que não estava usando perfume e ele repetiu então que eu estava linda com a minha essência. Disse que gostava de me abraçar, beijar e me sentir com toda minha naturalidade.

Esse foi um início muito diferente de relacionamento, diferente de qualquer história que tenha tido antes. Primeiro porque era o amor da minha vida, hoje meu marido, que eu amo muito. Segundo porque acredito que tenha dado tão certo em função de que me voltei para dentro de mim mesma, para tentar mostrar para ele o que havia além da maquiagem, além do rosto cheio de base e pó para televisão ou além do perfume cheiroso de marcas famosas. Procurei mostrar a mulher linda que existia em mim – por dentro e por fora. Ele passou a me conhecer, a desbravar comigo o mundo, descobrir segredos e topar todo tipo de aventuras ao meu lado. Assistia os programas que eu apresentava na TV, mandava comentários, participações e comentava comigo sobre o conteúdo e as pautas tratadas.

Penso hoje que talvez essa história jamais tivesse avançado se eu seguisse preocupada com a maquiagem e com o exterior. Nada como o pé na grama, um banho de chuva, a aventura num camping para a guria de apartamento, as longas caminhadas, o cabelo escabelado e a sensação do barco a vela na reportagem ajudando a aumentaro frio na barriga. Hoje seguimos nas aventuras, com muitas pedaladas com o grupo de ciclismo da Associação de Cegos do Rio Grande do Sul (ACERGS), coordenado pelo Rafa. Andamos em bicicletas duplas, onde quem enxerga vai na frente e a pessoa com deficiência visual vai atrás. Novamente a maquiagem desaparece: colocamos capacetes, a mulherada prende o cabelo, o suor escorre no rosto e o mais importante é a adrenalina, o vento no rosto e as emoções.

Recentemente realizamos juntos um dos sonhos da minha vida: voamos de balão. Foi algo incrível. O balão voando, o vento soprando, o flutuar nas alturas, a sensação de estar lá em cima, a liberdade, a decolagem, o pouso e tudo mais. Rafa, obrigada por ser o meu companheiro de todas as horas. Das viagens de barco, de avião, de ônibus, das pedaladas de bike, dos piqueniques, dos acampamentos, dos shows inesquecíveis, das músicas e das horas ruins também.

Hoje estou em um trabalho novo na UFRGS, onde não tenho a exigência de me maquiar, mas meu lado vaidoso faz com que eu me maquie todos os dias. Faço esse exercício externo de passar maquiagem, mas na verdade estou olhando para dentro de mim e cuidando do meu lado emocional e psicológico. Tenho uma nova colega, que se tornou uma grande amiga, Renata, que me assessora e avisa se não borrei nada.

Passo base no rosto, blush, rimel, lápis e batom. Olho no espelho e não percebo nada diferente. Fico igual a antes. Chego a imaginar a mudança no visual, mas realmente qualquer transformação não me aparece visualmente, mas emocionalmente. Descobri por que gosto – e admito que gosto muito – de me maquiar. Passar base o rosto significa fazer um carinho na própria pele, significa parar por um instante, olhar para o espelho e não ver diferença nenhuma e pensar o quanto sou uma mulher bonita. Significa lembrar que me amo, com ou sem visão. Mesmo que minha visão esteja diminuindo a cada dia, mês ou ano – o que me causa muita dor e lágrimas -, amo e valorizo o pouquinho de visão que tenho. Amo fazer carinho na minha pele todos os dias pela manhã. Passo a base com protetor solar para prevenir as manchas e o envelhecimento.

Em meu novo trabalho como servidora pública da UFRGS posso passar uma maquiagem leve, sem a necessidade do pó – que tinha que usar em grande quantidade na televisão. Passo rimel transparente, que também é uma massagem nos sílios. Passo blush bem discreto, gloss só para dar uma corzinha. Faço tudo com o auxílio do tato e das outras percepções. Depois desse momento de beleza olho para o espelho e penso que estou linda, que sou linda, que me amo, que o dia será maravilhoso. As grandes belezas da vida talvez nunca possam ser vistas com a visão. Para além da maquiagem e do universo exterior há um mundo a ser desbravado e construído com mais amor e menos superficialidades.

Uma obra urgente para o nosso tempo

Por: Fernanda Bastos, jornalista

Estamos passando por um período bastante difícil em nosso País. Além de as pessoas se negarem a ouvir as outras, alguns grupos políticos vão além, e querem impedir a evolução de quem quer sair da escuridão da ignorância. Se há dúvidas quanto a esse cenário, vide o caso da tentativa de criar uma campanha pública para vetar a vinda da pensadora Judith Butler ao Brasil e ainda a iniciativa do movimento Escola Sem Partido, que tentar fazer com que o Enem passe a permitir a intolerância e o incentivo a crimes, como o de racismo, nas redações.
Esses dois casos — poderia citar muitos outros — deixam claro que, para alguns, não basta fugir da busca de conhecimento e troca entre sujeitos, é necessário impedir que o outro siga em evolução.

Nessas iniciativas, fica evidente que, para determinados setores da nossa sociedade, é preciso negar o direito do outro; há um desejo implícito ou explícito de violar os direitos humanos.
E ainda vale observar o fato de que só o brasileiro vai perder com essa falsa disputa: as ideias de Butler seguirão circulando e impactando a vida de milhares de pessoas, bem como a noção de direitos humanos permanecerá como o alicerce para sociedades minimamente seguras.
Diante desse cenário trevoso, entretanto, sobressaem projetos que nos inspiram e fazem com que olhemos para a diferença ignorada no cotidiano. É o caso do livro Histórias de Baixa Visão, obra organizada pela jornalista Mariana Baierle que reúne 19 autores para falar dessa condição que atinge, ao todo, seis milhões de brasileiros.

Nos textos, os autores remexem no passado, buscando como se deu a perda do sentido, que pode ser originada por diferentes causas, e contando como passaram a conviver com a baixa visão. Muitos foram obrigados a ressignificar a própria existência, lidando com preconceitos e a dificuldade de aceitar o entre-lugar causado por ficar entre a cegueira e visão total.

Esse local muitas vezes gera incompreensão e intolerância. Relatos como o de Grazieli Dhamer e André Werkhausen Boone mostram que as dificuldades podem começam na escola, ambiente que deve ser moldado para lidar com a pluralidade, mas esbarra na falta de investimento e formação adequada. Na fase adulta, tomar a rua pode mostrar que são poucos os aliados e mutos os riscos até aliar independência e segurança. Histórias como a de Rafael Braz atestam que faltam condições e não esforço para que as pessoas com baixa visão possam ocupar empregos em qualquer setor e com todo tipo de qualificação. A superação da falta de entendimento e condições é o foco de outros relatos, mas o elemento que parece ser comum é a aceitação, processo descrito exemplarmente no emocionante relato de Rafael Martins sobre seu desejo de dirigir.

Cabe ainda à organizadora Mariana Baierle, logo no início, fazer um panorama da condição deste grupo, assinalando suas demandas e sua constituição nos campos político e legal.

Na minha leitura, o grande mérito da obra é sua constituição, pois não é sobre pessoas de baixa visão, mas com pessoas de baixa visão. Explico: o livro foi organizado e escrito por pessoas que vivem nessa condição e, portanto, do ponto de vista da narrativa, não há uma lupa voltada a esses sujeitos, mas um microfone direcionado às suas bocas, para que tenham voz e possam ser ouvidos. Isso faz da obra material de interesse para professores, estudiosos e também o cidadão comum, especialmente o do bem. Reafirmo: é uma obra sobre baixa visão com pessoas de baixa visão, mas não só voltada para elas.

Um conhecimento mínimo do mercado editorial brasileiro permite imaginar como foi árduo o trabalho para que essa obra chegasse aos leitores. O esforço conseguiu bancar a obra impressa pela editora CRV, mas o livro terá ainda volumes em braile e audiolivro, resultado de diversas parcerias. Isso permite que o texto chegue a mais pessoas e de forma acessível, grande mérito do empenho da organizadora. Histórias de baixa visão será lançado na Feira do Livro de Porto Alegre, no dia 18 de novembro às 15h na Sala Oeste do Santander Cultural. É por conta da importância indiscutível dessa obra como material de vivência e também marcação política em prol dos direitos humanos que estarei lá pronta para ouvir os autores e prestigiar essa iniciativa.