Entrevista: Mariana Baierle, jornalista

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Abaixo entrevista que dei para os alunos do curso de Jornalismo da UFRGS, na disciplina Seminário de Tecnologia.

Por: Bruna Linhares, 03 de Dezembro de 2012

A porto-alegrense Mariana Baierle tem 27 anos, é jornalista, formada pela PUCRS e mestre em Letras, pela UFRGS. Desde setembro, ela apresenta um quadro sobre acessibilidade no programa Cidadania, da TVE. Mariana, que possui baixa visão desde que nasceu, tornou-se a primeira jornalista com essa característica a apresentar um quadro fixo em uma emissora de televisão aberta. Além do trabalho na TVE, a jornalista também é editora do blog Três Gotinhas, professora no curso de extensão “Educação, Cultura e Acessibilidade” da Faculdade de Educação da UFRGS, além de prestar consultoria de audiodescrição e acessibilidade. Na entrevista a seguir, concedida ao Cultura para Ver, Mariana Baierle fala um pouco sobre a sua trajetória acadêmica, suas atividades profissionais e sobre acessibilidade.

CULTURA PARA VER – És graduada em Jornalismo e mestre em Letras. Enfrentaste alguma dificuldade com relação à falta de acessibilidade ao longo da tua formação? E como avalia os currículos dos cursos com relação à inclusão?

MARIANA BAIERLE – Eu enfrentei, sim, diversas dificuldades ao longo da minha formação. Mas essas dificuldades não foram apenas em função de ter uma deficiência visual. Eu diria que, em primeiro lugar, enfrentei as mesmas dificuldades ou exigências que meus colegas sem deficiência: conciliar faculdade e estágio ou emprego, cumprir prazos, fazer provas, entregar trabalhos, fazer diversas disciplinas ao mesmo tempo etc.

A questão da deficiência esteve, sim, presente e, em alguns momentos, eu senti muitas dificuldades. Os professores e os próprios currículos dos cursos não estão preparados para alunos com qualquer tipo de deficiência. Na Comunicação, a questão da imagem é muito forte e muito cobrada pelos professores. Não há nenhuma disciplina sobre audiodescrição ou acessibilidade na mídia, pelo menos dentro dos cursos de Jornalismo que conheço. É algo que as instituições de ensino precisam aprimorar com urgência.

Na área de Letras é a mesma coisa. No mestrado não tive nenhuma disciplina voltada para essas questões de acessibilidade e inclusão de alunos com deficiência. E esse é um curso que forma professores, que irão trabalhar com alunos com e sem deficiência. Algo realmente preocupante.

CV – Tu és uma das responsáveis pelo documentário Olhares, tem o blog Três Gotinhas, e apresenta um quadro sobre acessibilidade na TVE. Como e por que começastes com estes trabalhos voltados para a inclusão?

MARIANA – Todo o meu interesse por estudar e trabalhar com questões de acessibilidade começou na UFRGS, quando entrei em contato com o pessoal do Programa Incluir. Comecei a ser atendida por esse programa, que adapta materiais didáticos para alunos com algum tipo de deficiência. Comecei a me interessar por esse tipo de trabalho, não só como aluna atendida, mas também sob o ponto de vista profissional. Lá conheci pessoas maravilhosas que me deram força, até para assumir mais minha deficiência visual e aprender como lidar da melhor forma possível com isso. Aos poucos fui fazendo cursos, escrevendo no meu blog Três Gotinhas sobre esses temas, participando de grupos de estudo e projetos de pesquisa envolvendo audiodescrição e acessibilidade num plano mais amplo, além de dirigir o documentário Olhares em parceria com meu amigo Felipe Mianes.

Hoje já ministro um curso de extensão na Faculdade de Educação da Ufrgs e me orgulho muito de todos esses trabalhos. Essas atividades podem atingir e beneficiar outras pessoas com e sem deficiência. Muitas pessoas com as quais converso sobre as dificuldades enfrentadas por aqueles com deficiência acabam se tornando multiplicadoras desse ideal de um mundo mais acessível para todos e levando essa consciência adiante. Ver que essas questões estão se multiplicando não tem preço, pois sinto que aos poucos a realidade começa a melhorar.

CV – Achas que ainda existe muito preconceito ou falta de informação das pessoas com relação àqueles que possuem cegueira ou baixa visão?

MARIANA – Sim, a falta de informação está por toda a parte. E isso acaba levando ao preconceito e a atitudes que, muitas vezes, podem ofender a pessoa com deficiência. Acredito que, aos poucos (ainda de forma mais lenta do que o esperado), essa realidade está mudando. O convívio maior com as pessoas com deficiência através de sua inserção em diversos ambientes (escola, universidade, mercado de trabalho, centros culturais) ajuda bastante na quebra de paradigmas e de estereótipos. Gradativamente estamos modificando aquelas ideias antigas de que a pessoa com deficiência não pode fazer nada, não pode trabalhar, ter amigos, frequentar a escola, sair de casa, interagir com as pessoas, constituir uma família etc.

CV – Como está sendo a experiência na televisão? Estás tendo retorno do público?

MARIANA – É a primeira vez que estou trabalhando em uma TV. Foi algo totalmente por acaso, jamais havia pensado ou planejado trabalhar em uma TV. Sempre pensei em seguir no jornalismo impresso ou online por gostar muito de escrever e entrevistar pessoas. Estou gostando da experiência e do aprendizado. Acho que estou me saindo bem, apesar de ser tudo muito novo para mim. Muitas pessoas comentam sobre a importância de uma jornalista com deficiência estar ocupando esse espaço para falar sobre acessibilidade. Creio que realmente seja importante para mostrarmos à sociedade que o fato de eu – ou de outra pessoa – ter uma deficiência não é um impeditivo para que exerça minhas atividades profissionais. Tenho pequenas adaptações no ambiente de trabalho, mas isso ocorre para qualquer pessoa – cada profissional tem perfil para uma função, para um estilo de trabalho, um ritmo próprio. E o mesmo acontece comigo e com outras pessoas com deficiência.

CV – Quais medidas simples tu achas que poderiam ser implementadas em ambientes públicos, culturais, etc., para melhorar a acessibilidade e a inclusão de pessoas com cegueira e baixa visão?

MARIANA – Em primeiro lugar a desobstrução dos caminhos e calçadas. As calçadas de Porto Alegre são terríveis, totalmente esburacadas, quebradas, irregulares. Há sacos de lixo no caminho, entulho de obras, fios de aço atravessados, orelhões sem sinalização, postes, placas etc. A população e os órgãos públicos deveriam cuidar e preservar as calçadas, mas ninguém parece estar preocupado com isso.

Nos espaços culturais, mesmo que em ambientes fechados, também ocorre de termos corredores obstruídos com diversos obstáculos. As pessoas precisam se dar conta que uma cadeira no meio do caminho pode não ser nada grave para quem enxerga, mas para quem tem deficiência visual isso já representa um risco para acidentes. Medidas simples como essas – desobstruir calçadas, corredores e caminhos por onde as pessoas circulem. Isso irá ajudar a pessoa com deficiência visual, mobilidade reduzida, cadeirante, a mãe que empurra um carrinho de bebe,etc.

Fonte:

http://projetotransmidia.wix.com/culturaparaver#!posts/cmr

2 Comentários

  • André Luiz Soares escreveu:

    Parabéns por sua entrevista, Mariana. Infelizmente, ainda não conheço seu trabalho na TVE, porém é gratificante ver uma pessoa talentosa e possuidora de baixa visão, como eu, desbravar caminhos na TV.

  • Oi André! LEgal receber teu retorno!!!! Pode mandar teus comentários e sugestões pra mim sempre! Se quiser curte a pagina Três Gostinhas no facebook… bjao

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