Pérolas lamentáveis

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Algumas pessoas emitem frases e opiniões, aparentemente banais, sem medir o alcance de suas palavras. As palavras podem ferir mais do que um tiro de revólver.
O momento de pegar ônibus em Porto Alegre é sempre uma situação crítica, pois preciso interagir com as pessoas e pedir para que elas me avisem quando vier meu ônibus.
Uma situação corriqueira, mas que, contudo, acaba me trazendo muito estresse. É o momento em que escuto comentários lamentáveis. Quando peço para alguém me avisar qual é meu ônibus, meu coração acelera. Sei que corro perigo de escutar coisas extremamente desagradáveis, vindos de pessoas sem sensibilidade alguma.
Talvez na tentativa de ser simpático ou de simplesmente não ficar em silêncio, não raras vezes meu interlocutor diz coisas sem pensar, que me deixam constrangida, para não dizer braba, furiosa, revoltada.
Esses dias pedi ajuda a uma senhora em uma parada na avenida Oswaldo Aranha. Ela respondeu que me avisaria quando viesse o meu ônibus, pois o dela ainda ia demorar uns 50 minutos. Perguntei para onde ela ia. “Para Alvorada, só que o ônibus só passa de hora em hora”, respondeu. Ela contou que, depois que seu ônibus chegasse, levava mais uma hora até em casa. “Nossa, que demora”, pensei. Até ai tudo sobre controle, mas a senhora continuou:
- “Tu não enxerga nada?”
- “Enxergo pouco senhora, tenho baixa visão”, respondi.
Até ai, tudo bem ainda. Estou acostumada a responder esse tipo de coisa e, de verdade, não me importo em falar sobre isso quando as pessoas agem com naturalidade e não falam coisas absurdas. Porém, como eu já esperava (pois sempre ocorre depois da pessoa começar a falar sobre esse assunto), a senhora largou a pérola do dia:
- “Ah, que bom que enxerga um pouco então! Graças a Deus! Mais triste ainda seria se não enxergasse nada!”
Contei até um milhão para não explodir e xingar aquele ser por todos seus antepassados. “Mais triste ainda seria se não enxergasse nada”. Aquela frase ecoou com violência, como um soco, como um tiro – que recebo constantemente de todos os lados.
Em primeiro lugar, não acho que a minha vida seja nem um pouco triste. Aliás, mesmo que fosse cega acho que minha vida não seria triste. Em segundo lugar, se tem algo triste nessa situação, para mim, é o fato da mulher morar em Alvorada, ter que esperar 50 minutos pelo ônibus e depois mais uma hora até chegar em casa. Na minha opinião isso sim é triste. Em duas horas de viagem eu chego na praia ou na serra! Eu em 15 minutos estaria dentro da minha casa.
Situações como essa são comuns, acontecem diariamente e me irritam diariamente. As pessoas não se dão conta do poder das palavras e de como seus comentários estão impregnados de preconceitos e estereótipos negativos. Por que um cego ou alguém com baixa visão precisa ter uma vida triste?
E o pior de tudo é que eu não podia brigar com a mulher que iria me avisar do meu ônibus. Eu ainda dependia de sua ajuda. Tive que ficar ali, firme, sem brigar, sem mandar ela longe, sem reclamar, como se estivesse tudo bem. Mas nada estava bem. Como de costume, em 5 minutos meu ônibus chegou. A mulher me avisou, eu agradeci e disse: “Boa espera”.
Como convivo com esse tipo de comentário constantemente posso dizer que é, no mínimo, revoltante. Aguentar frases como essa todos os dias incomoda, irrita. cansa e desanima.
Só para completar, no dia seguinte (sem nem um diazinho de descanso) sou atacada por outra pessoa que me trouxe uma nova pérola para minha coleção de causos. Uma pessoa me deu lugar para sentar no ônibus. Agradeci e sentei simplesmente. A pessoa então, para variar, largou sua pérola.
“- Mas tu tem os olhos tão bonitos, nem parece!”.
Contei até três e perguntei:
“- Não parece o quê?”
“- Que você não enxerga…”
“- Eu enxergo um pouco, tenho baixa visão.”
E a pessoa insistiu:
“- Ah, consegue ver só os vultos das coisas então Mas teus olhos são azuis, são tão bonitos! Nem parece…”
Virei para o lado com vontade de chorar, de me jogar no chão, de espernear, de mandar a criatura tomar naquele lugar. Porra, será que uma pessoa com deficiência visual tem que necessariamente ter olhos feios? Uma pessoa com deficiência não pode ter olhos bonitos? Por que a deficiência está assim relacionada a algo feio?
Se ela estivesse simplesmente elogiando meus olhos são bonitos, tudo bem, mas o contexto não era esse. “Mas teus olhos são azuis, são tão bonitos. Nem parece…”. A fala ecoou dentro de mim como um novo tiro, um novo ataque de arma de fogo.
Qual o sentido da conjunção “mas”? Conforme aprendi na escola, “mas” é uma adversativa, ou seja, significa uma oposição, uma contrariedade. Nesse caso “mas teus olhos são tão bonitos” é uma oposição ao fato de ter uma deficiência visual.
Irritação. Revolta. Impotência. Fúria. Incapacidade de mudar o mundo e, principalmente, de mudar a cabeça das pessoas.
Gostaria de viver em um planeta em que ter alguma peculiaridade física fosse uma normalidade, algo comum. Afinal, há tanta gente com deficiência por ai.
Na minha opinião, as pessoas que fazem esses comentários-pérolas para mim na rua – e entram para o meu caderninho de causos lamentáveis – já têm, sem dúvidas, suas próprias deficiências. Sim, uma deficiência ou problema psicológico. No bom português, falta de “simalcol”.
Sei que há muita falta de informação e que a população às vezes sequer sabe que existem pessoas com baixa visão no mundo. Por isso, talvez essas pessoas fiquem espantadas. Eu não as culpo pelo desconhecimento. Mas não conhecer o tema não é justificativa para falta de sensibilidade, educação e respeito.

4 Comentários

  • Bom, pelo menos eu fico mais confortado sabendo que eu não sou o único que fica bufando com essas situações, hahaha

  • Andjara escreveu:

    Mari….

    é incrível como a sociedade julga de uma forma feia, sem ao menos conhecer……
    tenho contato com algumas pessoas surdas aqui em Uberaba e, com elas, aprendi muita coisa….. e tem uma frase que, apesar de relacionada à surdez, encaixa-se perfeitamente ao seu contexto:

    “Recuso-me a ser considerada excepcional, deficiente. Não sou. Sou surda. Para mim, a língua de sinais corresponde à minha voz, meus olhos são meus ouvidos. Sinceramente nada me falta. É a sociedade que me torna excepcional…” Emmanuelle Laborit

    É exatamente a mesma coisa… e vejo muitas pessoas se referindo a um cego como “deficiente visual” ou a um surdo como “deficiente auditivo”… acho essa palavra “deficiente” tão forte… é uma peculiaridade, mas nada que torne você ou qualquer pessoa melhor ou pior pela simples “diferença”……

    Continue respirando fundo….. pois, infelizmente, sabemos que essas coisas estarão presentes, mas atitudes como a sua, a começar pelo seu blog, irão sensibilizar algumas pessoas!

    Gostaria de sugerir um post para o seu blog…. lembro-me claramente que, quando fui aí, você me contou um pouco sobre o início do uso da bengala, que seu amigo a incentivou e algumas das suas experiências…. acho que você pode retratar um pouco aqui!

    Beijos da prima que a admira!

  • Luciane escreveu:

    Mari,
    Com certeza precisamos de uma sociedade mais sensível, existem muitas situações na vida que uma simples pergunta ou comentário não precisavam existir. Mas são pessoas sem conhecimento, ou quem sabe até frias aos sentimentos dos outros. Que a gente possa ter uma sociedade mais amável e inteligente.
    Abração,
    Lu

  • Mari,

    Eu, não sei porque, mas ainda fico espantada com a falta de transparência do ser humano sabe!
    Eu custo a acreditar que nós seres humanos ainda cometemos esses atos inapropriados!
    Fique vc sabendo que conheço pessoas surdas, mudas, cegas, ou com algum outro tipo de deficiência, e essas mesmas deficiências nunca os impediram de seguir em frente! Às vezes, assim como vc cita, temos que contar até mil antes de fazer algo!
    Só quero que vc saiba que ao mesmo tempo que muitos fazem pouco caso de pessoas com algo “diferente”, as poucas que se importam é que ainda fazem esse mundo ser mundo.

    beijos e força!

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