Documentário Olhares será exibido na Mostra de Curta Metragem Acessível para Pessoas com Deficiência em Novo Hamburgo/ RS

A Fundação Liberato apresentará no dia 10 de dezembro de 2012 a Mostra de Curta Metragem Acessível para Pessoas com Deficiência. O evento ocorrerá às 8 horas no Auditório da Fundação Liberato. Nesta ocasião ocorrerá um debate que promoverá reflexões para o estabelecimento de uma proposta que oriente aos idealizadores de peças audiovisuais em sua produção para que sejam estética e tecnicamente acessíveis, com a apreciação crítica de cegos e surdos. Deste modo, com iniciativas como esta será possível a ampliação do acervo das produções fílmicas com ferramentas de acessibilidade para o vasto público de pessoas com deficiências visuais e auditivas. A Mostra é uma das propostas articuladas ao processo de planejamento e desenvolvimento para a concepção de um Centro de Referência de Tecnologias Assistivas que está sendo idealizado pela Fundação Liberato.

Fonte: http://www.liberato.com.br/UserFiles/File/noticias/release%20mostra%20acess%C3%ADvel%20para%20pessoas%20com%20deficienciasx.pdf

Entrevista: Mariana Baierle, jornalista

Abaixo entrevista que dei para os alunos do curso de Jornalismo da UFRGS, na disciplina Seminário de Tecnologia.

Por: Bruna Linhares, 03 de Dezembro de 2012

A porto-alegrense Mariana Baierle tem 27 anos, é jornalista, formada pela PUCRS e mestre em Letras, pela UFRGS. Desde setembro, ela apresenta um quadro sobre acessibilidade no programa Cidadania, da TVE. Mariana, que possui baixa visão desde que nasceu, tornou-se a primeira jornalista com essa característica a apresentar um quadro fixo em uma emissora de televisão aberta. Além do trabalho na TVE, a jornalista também é editora do blog Três Gotinhas, professora no curso de extensão “Educação, Cultura e Acessibilidade” da Faculdade de Educação da UFRGS, além de prestar consultoria de audiodescrição e acessibilidade. Na entrevista a seguir, concedida ao Cultura para Ver, Mariana Baierle fala um pouco sobre a sua trajetória acadêmica, suas atividades profissionais e sobre acessibilidade.

CULTURA PARA VER – És graduada em Jornalismo e mestre em Letras. Enfrentaste alguma dificuldade com relação à falta de acessibilidade ao longo da tua formação? E como avalia os currículos dos cursos com relação à inclusão?

MARIANA BAIERLE – Eu enfrentei, sim, diversas dificuldades ao longo da minha formação. Mas essas dificuldades não foram apenas em função de ter uma deficiência visual. Eu diria que, em primeiro lugar, enfrentei as mesmas dificuldades ou exigências que meus colegas sem deficiência: conciliar faculdade e estágio ou emprego, cumprir prazos, fazer provas, entregar trabalhos, fazer diversas disciplinas ao mesmo tempo etc.

A questão da deficiência esteve, sim, presente e, em alguns momentos, eu senti muitas dificuldades. Os professores e os próprios currículos dos cursos não estão preparados para alunos com qualquer tipo de deficiência. Na Comunicação, a questão da imagem é muito forte e muito cobrada pelos professores. Não há nenhuma disciplina sobre audiodescrição ou acessibilidade na mídia, pelo menos dentro dos cursos de Jornalismo que conheço. É algo que as instituições de ensino precisam aprimorar com urgência.

Na área de Letras é a mesma coisa. No mestrado não tive nenhuma disciplina voltada para essas questões de acessibilidade e inclusão de alunos com deficiência. E esse é um curso que forma professores, que irão trabalhar com alunos com e sem deficiência. Algo realmente preocupante.

CV – Tu és uma das responsáveis pelo documentário Olhares, tem o blog Três Gotinhas, e apresenta um quadro sobre acessibilidade na TVE. Como e por que começastes com estes trabalhos voltados para a inclusão?

MARIANA – Todo o meu interesse por estudar e trabalhar com questões de acessibilidade começou na UFRGS, quando entrei em contato com o pessoal do Programa Incluir. Comecei a ser atendida por esse programa, que adapta materiais didáticos para alunos com algum tipo de deficiência. Comecei a me interessar por esse tipo de trabalho, não só como aluna atendida, mas também sob o ponto de vista profissional. Lá conheci pessoas maravilhosas que me deram força, até para assumir mais minha deficiência visual e aprender como lidar da melhor forma possível com isso. Aos poucos fui fazendo cursos, escrevendo no meu blog Três Gotinhas sobre esses temas, participando de grupos de estudo e projetos de pesquisa envolvendo audiodescrição e acessibilidade num plano mais amplo, além de dirigir o documentário Olhares em parceria com meu amigo Felipe Mianes.

Hoje já ministro um curso de extensão na Faculdade de Educação da Ufrgs e me orgulho muito de todos esses trabalhos. Essas atividades podem atingir e beneficiar outras pessoas com e sem deficiência. Muitas pessoas com as quais converso sobre as dificuldades enfrentadas por aqueles com deficiência acabam se tornando multiplicadoras desse ideal de um mundo mais acessível para todos e levando essa consciência adiante. Ver que essas questões estão se multiplicando não tem preço, pois sinto que aos poucos a realidade começa a melhorar.

CV – Achas que ainda existe muito preconceito ou falta de informação das pessoas com relação àqueles que possuem cegueira ou baixa visão?

MARIANA – Sim, a falta de informação está por toda a parte. E isso acaba levando ao preconceito e a atitudes que, muitas vezes, podem ofender a pessoa com deficiência. Acredito que, aos poucos (ainda de forma mais lenta do que o esperado), essa realidade está mudando. O convívio maior com as pessoas com deficiência através de sua inserção em diversos ambientes (escola, universidade, mercado de trabalho, centros culturais) ajuda bastante na quebra de paradigmas e de estereótipos. Gradativamente estamos modificando aquelas ideias antigas de que a pessoa com deficiência não pode fazer nada, não pode trabalhar, ter amigos, frequentar a escola, sair de casa, interagir com as pessoas, constituir uma família etc.

CV – Como está sendo a experiência na televisão? Estás tendo retorno do público?

MARIANA – É a primeira vez que estou trabalhando em uma TV. Foi algo totalmente por acaso, jamais havia pensado ou planejado trabalhar em uma TV. Sempre pensei em seguir no jornalismo impresso ou online por gostar muito de escrever e entrevistar pessoas. Estou gostando da experiência e do aprendizado. Acho que estou me saindo bem, apesar de ser tudo muito novo para mim. Muitas pessoas comentam sobre a importância de uma jornalista com deficiência estar ocupando esse espaço para falar sobre acessibilidade. Creio que realmente seja importante para mostrarmos à sociedade que o fato de eu – ou de outra pessoa – ter uma deficiência não é um impeditivo para que exerça minhas atividades profissionais. Tenho pequenas adaptações no ambiente de trabalho, mas isso ocorre para qualquer pessoa – cada profissional tem perfil para uma função, para um estilo de trabalho, um ritmo próprio. E o mesmo acontece comigo e com outras pessoas com deficiência.

CV – Quais medidas simples tu achas que poderiam ser implementadas em ambientes públicos, culturais, etc., para melhorar a acessibilidade e a inclusão de pessoas com cegueira e baixa visão?

MARIANA – Em primeiro lugar a desobstrução dos caminhos e calçadas. As calçadas de Porto Alegre são terríveis, totalmente esburacadas, quebradas, irregulares. Há sacos de lixo no caminho, entulho de obras, fios de aço atravessados, orelhões sem sinalização, postes, placas etc. A população e os órgãos públicos deveriam cuidar e preservar as calçadas, mas ninguém parece estar preocupado com isso.

Nos espaços culturais, mesmo que em ambientes fechados, também ocorre de termos corredores obstruídos com diversos obstáculos. As pessoas precisam se dar conta que uma cadeira no meio do caminho pode não ser nada grave para quem enxerga, mas para quem tem deficiência visual isso já representa um risco para acidentes. Medidas simples como essas – desobstruir calçadas, corredores e caminhos por onde as pessoas circulem. Isso irá ajudar a pessoa com deficiência visual, mobilidade reduzida, cadeirante, a mãe que empurra um carrinho de bebe,etc.

Fonte:

http://projetotransmidia.wix.com/culturaparaver#!posts/cmr

Cinco perguntas para Mariana Baierle

Deficiente visual, ela é a apresentadora do quadro Acessibilidade, do programa Cidadania, da TVE.

Crédito da foto: Giovanni Rocha

1. Quem é você, de onde veio e o que faz?

Sou a Mariana Baierle, mas meus amigos me chamam de Mari. Nasci em Porto Alegre, tenho 27 anos e sou jornalista, formada pela PUC, além de mestre em Letras pela Ufrgs. Atualmente, trabalho na TVE, onde apresento um quadro sobre acessibilidade nas sextas-feiras, dentro do programa Cidadania.

Tenho o blog ‘Três Gotinhas’, em que conto parte da minha vida, minhas experiências e meu cotidiano, além de veicular notícias e dicas sobre acessibilidade. Estou ministrando um curso de extensão na Faculdade de Educação da Ufrgs (Educação, Cultura e Acessibilidade). Trabalho ainda como consultora de audiodescrição e de acessibilidade em projetos culturais. Faço também divulgação de eventos e assessoria de imprensa como free lancer.

2. Como é apresentar um quadro em um programa de televisão?

Este programa, apresentado por Lena Ruduit, vai ao ar segundas, quartas e sextas-feiras às 19h. Nas sextas-feiras, eu tenho um quadro sobre Acessibilidade, onde faço comentários sobre assuntos diversos, tais como: produtos culturais acessíveis, direitos das pessoas com deficiência, mercado de trabalho, educação, eventos, esporte, lazer, etc.

É a primeira vez que trabalho em TV. Estou aprendendo. O trabalho em equipe e o apoio dos colegas têm sido fundamental.

3. Como você lida com a baixa visão profissionalmente?

Eu diria que lido bem. Nunca me limitei, tanto na profissão quanto na minha vida pessoal, por ter deficiência visual – cerca de 10% de visão. Acho que lido com isso de uma forma muito tranquila, até porque já nasci com esse nível de visão, então hoje é algo muito natural. Tento agir naturalmente em relação a isso, pois cada pessoa tem suas próprias características – e essa é uma entre tantas coisas que me definem. Não me coloco em posição de vítima por ter deficiência visual. Jamais me senti como “coitadinha” ou como “um exemplo de alguém que se supera”.

Acho que se as pessoas com deficiência tivessem as condições adequadas para se desenvolver, desde a educação básica até o mercado de trabalho, o fato de ocuparem diversos espaços e tipos de emprego não seria tão espetacular – seria visto com maior naturalidade. Quero que um dia eu as pessoas com deficiência sejam reconhecidas primeiro pelo talento e capacidade, e depois pela deficiência. Esse ainda é um sonho distante, mas é o que eu vou sempre perseguir. Sei de minhas capacidades e que posso exercer minha profissão da mesma forma como meus colegas jornalistas.

Nunca deixei de fazer nada desde a época da faculdade. Fiz todas as disciplinas, até as mais difíceis para mim, como fotografia, edição de vídeo, diagramação, entre outras. E em todas fui aprovada por mérito próprio. Nunca tive professores que simplesmente me aprovassem sem que eu cumprisse todos os requisitos.

Fico muito chateada quando me deparo no mercado de trabalho com pessoas que pensam que não posso exercer o Jornalismo plenamente por ter baixa visão. Posso não enxergar os detalhes de algumas coisas (da forma como outras pessoas veem), em compensação, tenho maior sensibilidade para sentir o ambiente, avaliar situações e compreender o que está acontecendo.

4. O que mais lhe dá prazer na profissão?

A possibilidade de entrevistar pessoas, conhecer lugares e realidades diferentes. O Jornalismo me encanta porque permite essa troca. Estou sempre lendo e buscando me aperfeiçoar.

5. Quais são os planos para os próximos cinco anos?

Pretendo seguir trabalhando com comunicação e, se possível, me aperfeiçoando nessa área da acessibilidade. Quero seguir dando cursos e talvez inicie o doutorado nessa área. São ideias que estou amadurecendo. Gosto de dar aula, de interagir com uma turma de alunos, de observar o crescimento deles, de poder ensinar e, principalmente, de aprender com eles. É muito bom sentir que você pode multiplicar algum tipo de conhecimento e sentir que as pessoas vão levar aquilo adiante.

Fonte: Coletiva.net
Data: 26/11/2012