O que a bengala me ensinou?

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Com a bengala eu aprendi a não ter vergonha de ser eu mesma. Com a bengala em aprendi a não disfarçar meu problema de visão. Com a bengala, passei a ser mais espontânea, discontraúida e autêntica. Passei a rir mais, fazer mais piadas e até a contar histórias engraçadas sobre quando não enxergo alguma coisa e passo por situações cômicas.

Com a bengala eu aprendi a ser menos ansiosa. Percebi que precisava literalmente dar um passo de cada vez – embora minhas pernas quisessem correr mais rápido. Aprendi que preciso tatear o caminho para dar o próximo passo. Aprendi que, mesmo que eu saiba onde quero chegar e quantos metros existem até lá, isso não basta – é preciso saber como chegar até lá, como percorrer o trajeto desejado, por onde passar ou por onde desviar. Isso vale para atravessar uma praça cheia de obstáculos, com raízes de árvores, orelhões e obras ou para atravessar os problemas filosóficos e cotidianos da vida.

Com a bengala aprendi a ser mais humilde. Aprendi a aceitar ajuda para atravessar a rua, a ser menos auto-suficiente e menos rígida comigo mesma. Aprendi a valorizar um braço amigo de alguém que se oferece para me ajudar e muitas vezes, sem sequer me conhecer, já me tirou de situações perigosas.

Com a bengala aprendi que para os amigos de verdade eu sou a mesma pessoa usando a bengala ou não – com ela aberta ou fechada, com ela na bolsa ou não. O importante para eles é meu sorriso no rosto e o estado emocional em que me encontro. Percebi que muitas pessoas me tratam de forma diferente por eu portar esse instrumento que representa a deficiência visual, querendo me proteger, falar de forma pejorativa ou até se afastando de mim. Essa realidade pode parecer cruel, mas pior ainda seria não percebê-la e não ter consciência de que ela existe.

Com a bengala aprendi que o que importa no ser humano é a humildade, a lealdade e a cumplicidade. Com a bengala aprendi que conquistar um grande amor pode ser uma questão de tempo, mas que inevitavelmente acontecerá. Um belo dia você irá esbarrar em uma pessoa especial em uma mesa de bar ou em uma esquina qualquer.

Com a bengala aprendi a dar valor para o que realmente importa nessa vida. Aprendi a dar tchau para o que não interessa mais, a valorizar as amizades que me completam, a me amar e a me aceitar intensamente e de verdade da forma que eu sou. Aprendi a amar a vida que está pulsante por toda parte – por onde posso tocar com a bengala e por onde posso tocar com minha sensibilidade.

Mais do que tudo isso, percebi que meus sonhos ultrapassam todos os obstáculos físicos do mundo. Aprendi que existem barreiras no caminho e que – concretamente – precisam ser contornadas, mas quando realmente acreditamos em algo qualquer dificuldade pode ser superada. Não há limite para os sonhos. E quando o sonho é verdadeiro, será realmente alcançado.

Obrigada bengala! Obrigada vida!

6 Comentários

  • Carmen Langaro escreveu:

    Ótimo, adorei.

  • Astroemia escreveu:

    Adorei, você me surpreende a cada dia. Parabéns pelo texto.

  • Anália escreveu:

    Que lindo Mari! Superação sempre! Beijo carinhoso.

  • Evandro Schuster escreveu:

    Nossa, Mariana! Há muito tempo não lia um texto tão bom, continue assim. Adoro pessoas que falam\escrevem com o coração e mesmo assim se mantém lúcidas. Parabéns!

  • Simplesmente, lindo!

  • Frederico escreveu:

    Recebi isso de um amigo faz uns dias, devia ter parado para ler antes, é simplesmente genial.
    Já discuti diversas vezes em mesas de a mudança social que acontece com uma pessoa jovem que começa a usar bengala. Esse texto fecha muito com o que eu costumo dizer, certamente eu não me expressaria tão bem quanto esse texto.
    Acho que deveriam existir bengalas que refletissem o espírito de quem usa, acho tudo que existe no mercado para a venda padronizado demais, encontrei alguma coisa legal no site fashionablecanes.com. Fica a dica, só não te assusta com o frete.
    Parabéns pelo texto e pelo blog, vou tentar virar leitor.

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