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Relato de Diele Santo

É com grande alegria que compartilho com os leitores do Três Gotinhas as palavras de Diele Pedrozo Santo, coordenadora do Projeto Ver com as Mãos, escritas logo após ao II Seminário sobre Acessibilidade do Projeto Ver com as Mãos. Diele, muito obrigada pela oportunidade de estar com vocês nesses momentos tão especiais!


“Confesso que ainda estou tentando absorver todos os acontecimentos da última semana… Quando hoje consegui sentar e respirar, refleti sobre tudo que aconteceu na minha vida, desde o dia 05 de dezembro de 2005 (a primeira vez que estive no IPC).
Naquela ocasião, quando resolvi me aventurar, muito curiosa e ainda bastante insegura no “mundo da deficiência visual”, nunca mesmo imaginava que hoje, os sonhos distantes que eu projetei, pudessem se tornar realidade.

Não pensem vocês que esse caminho foi fácil! Chorei muito nos meus primeiros dias como professora quando me deparei com alunos que desafiavam os meus conhecimentos e meu entendimento sobre a deficiência. Sofri muito por muitas vezes não saber o que fazer e não ter uma fórmula mágica para tentar ensinar o que queria aos meus alunos. Senti-me muito sozinha por muito tempo, ganhando pouco, fazendo muito, e tomando muito na cabeça por isso! Demorou para eu realmente conseguir entrar pra dentro da sala de aula e perceber que maior do que aquilo que as pessoas “achavam” que eu era, era pequeno demais diante do que eu queria fazer.

Meus alunos tiveram um papel fundamental nesse processo, primeiro porque, se eles não existissem eu jamais poderia sentir a satisfação que sinto quando estou com eles, seja ensinando em sala de aula, ou indo a um jogo de futebol ou uma lanchonete. Hoje sei como foi importante nesse processo observá-los, ouvi-los, compreendê-los. Eu ainda tenho tanto a aprender, mas quando olho pra eles, e percebo em pequenos detalhes e atitudes um pouquinho do que eu pude ensinar, não tem como não encher o peito de orgulho a ponto de transbordar o coração. Quem diria que aqueles meninos que não sabiam sequer desenhar um círculo no papel, hoje estariam discutindo sobre arte contemporânea, e brigando pelos seus direitos de ter acesso a arte e a cultura.

Não canso de contar para as pessoas como tudo que aprendo com eles é fantástico, e as vezes, pode ser até que me torne meio chata por falar tanto sobre isso, mas a vontade de que outras pessoas possam compreender melhor como as coisas podem ser muito mais simples do que imaginamos, para que eles possam realmente fazer parte desse “mundo visual”, que torno meu discurso muitas vezes exaustivo. Perdi as contas de quantas pessoas já me ouviram contar minhas histórias. É, um dia acho que ainda terei de escrever um livro, rs!

Depois de 8 anos, tive a oportunidade de colher os primeiros frutos concretos de que tudo, tudo, tudo mesmo valeu e vale muito a pena. Tudo pode parecer muito lindo quando vocês conhecem o Projeto Ver com as Mãos, mas, não pensem que tudo isso aconteceu porque EU fiz tudo isso sozinha. Contei no início com a paciência dos meus colegas professores que já trabalham com eles para pegar todas as dicas possíveis, fiz muitas perguntas “idiotas” até entender realmente o que era “ser cego”, quando criava algo para fazer em sala de aula, saia correndo pros meus colegas professores cegos que foram literalmente cobaias. Mas, quando estava eu, sozinha em sala de aula, era pros meus alunos que eu perguntava se a forma com que eu estava os ensinando estava correta.

Se hoje eu sou “mestra”, ah! Com toda certeza foi porque esses alunos me ensinaram tudo que sei! Esse “aval” dos meus colegas com deficiência visual e dos alunos, sempre me deixou muito segura para poder repassar para as pessoas o que aprendi com eles. Confesso que uma das coisas que mais me deixa feliz é ver uma sala cheia de gente para poder dividir todas as histórias fantásticas e descobertas que fiz nesse tempo. Adoro trabalhar com capacitação de professores, mesmo sabendo que talvez meia dúzia deles realmente tenham mudado a forma de pensar depois de me ouvir, pois se 1 deles me ouvir, pode fazer toda a diferença para um aluno com deficiência visual.

Uma das coisas que mais me orgulha hoje, é ter na equipe do projeto pessoas de todas áreas da Arte e da Cultura, que depois de conhecer meu trabalho decidiram pesquisar, criar, testar, conhecer, descobrir, aplicar, ensinar, aprender e AMAR o que fazem! Meus alunos estão em boas mãos, com professores, voluntários, oficineiros, que muito em breve, se tornarão uma referência em sua área! Pessoas que amam o que fazem e dão todo seu melhor para ensinar tudo que puderem aos alunos! TODOS começaram a trabalhar com os alunos sem nenhuma experiência, e hoje tem domínio total do que fazem, e já estão prontos para ensinar outras pessoas… multiplicando o conhecimento!
Nosso trabalho é de formiguinha, mas nosso formigueiro está gigante, e crescendo cada dia mais!

Sabe, as vezes eu acho que devo estar sendo uma menina muito boazinha, porque no ano de 2012, Papai Noel nos deu de presente o Projeto Ver com as Mãos, com direito a apoio do Criança Esperança, e continuidade garantida pelo Instituto HSBC em 2013/2014… e nesse ano, um dia depois do meu aniversário (depois da clássica surpresa maravilhosa dos meus alunos com direito a festa surpresa organizada por eles), realizamos o II Seminário do Projeto com mais de 100 pessoas inscritas, apresentações e exposição lindas dos alunos do projeto, palestras encantadores e desafiadoras, e muita gente engajada no debate.

Amei ver meus amigos e parceiros de trabalho palestrando, e tantas carinhas conhecidas na plateia, desde meus familiares, meus alunos, professores, estudantes, fotógrafos, gestores… gente do bem! E até uma do mal, que sabe-se-lá o que foi fazer em um lugar onde o respeito pelas pessoas está em primeiro lugar, e não o currículo Lattes hahahaha!

Piadas a parte, e para concluir, (não, ainda não acabou! :) …. No dia seguinte ao seminário, mesmo com todos os membros da equipe do projeto exaustos, ainda tivemos um dia memorável, daqueles para ficar para a história: a nossa professora de música do projeto realizou sua primeira sessão de teatro com audiodescrição: plateia cheia, tudo lindo, peça maravilhosa, e a honra de receber a maior referência em audiodescrição para assistir e nos dar a “benção”. A noite ainda terminou no NYC, com comida boa, muitas risadas e a certeza de que TODO E QUALQUER ESFORÇO VALE A PENA QUANDO ACREDITAMOS E FAZEMOS AS COISAS COM AMOR!

(Você, que não teve preguiça e leu esse “pequeno” relato até o fim e se identificou…. o meu mais sincero: MUITO OBRIGADA, porque se não fosse por vocês nada disso seria possível!).”

´Baixa visão e cegueira

A leitora Carlise Kronbauer enviou ao Três Gotinhas um depoimento bem interessante sobre sua experiência com baixa visão e depois coma cegueira. O relato é bem eloquente e evidenciai a dificuldade de compreensão e o desconhhecimento dos professores com relação à baixa visão.

Carlise é natural de Santa Rosa/ RS, mas foi morar em Giruá aos três anos de idade, onde cursou todo o Ensino Fundamental e Médio. É graduada em História pela Unijuí. Vale a pena conferir o texto dela! E se você também tiver algum depoismento, escreva para mim. Terei o maior prazer em compartilhá-lo!

“Nasci com baixa visão e fiquei cega aos 16 anos. Quando era estudante da Educação Básica tinha baixa visão. Vivenciei constrangimentos causados por práticas pedagogicamente incorretas, como, por exemplo, ser orientada a localizar informações em mapas expostos no mural da sala de aula. Essa situação veio acompanhada pela repreensão da professora por eu não atender à sua expectativa, além de chacotas de colegas insensíveis à minha deficiência.

Acredito que ter baixa visão é mais complicado que ser cego, pois muitas vezes não conseguia ler as provas que, mesmo solicitando letra ampliada, eram minúsculas. Os professores raramente lembravam da minha solicitação, trazendo frustração no momento da realização. Depois de ter ficado cega comecei a realizar as provas oralmente.

Devido a baixa visão não conseguia realizar os trabalhos de Educação Artística como os outros. Nenhuma alternativa era apresentada, bem como nas aulas de Matemática e Educação Física. Depois da perda da visão, não praticava quase nada nas aulas de Educação Artística e não realizava Educação Física.

Nas aulas de Matemática meu irmão adaptava os gráficos com lã e grãos de feijão, conseguindo fazer eu aprender também Física e Química. O que deveria ser proporcionado pelos professores era negligenciado, sendo suprido por meu irmão.

Com a baixa visão não realizava muita leitura de livros, devido a letra dos mesmos ser pequena. Já com a perda da visão minha família realizava a leitura de livros e materiais, pois a escola não possuía livros em braille e somente tive acesso a computador adaptado em casa em 2007. Dessa forma, realizei todo Ensino Médio e Superior com a utilização do braille.

Havia ainda as ocasiões em que, já com a perda total da visão, os professores, sem aviso prévio, apresentavam materiais em vídeo legendado, sem a devida tradução oral dos mesmos. Na época sentia-me entristecida, mas, por não saber me defender e propor alternativas ou exigir meus direitos, mantinha-me passiva.

Em 2001 meus pais mobilizaram os pais de outros cegos e foram a luta para a criação da sala de recursos para atender as necessidades dos cegos em Giruá onde morava, pois para aprender a escrita braille tive que me deslocar a Ijuí. Conseguimos criar em Giruá também a Associação dos Deficientes Visuais.

Atualmente, Giruá possui o centro de reabilitação de baixa visão e cegueira, com profissionais qualificados para ensinar braille, orientação e mobilidade, técnicas da vida diária e estimulação precóce, oferecendo atendimento a todos os cegos da região.

Durante a graduação consegui que fosse criada na Unijuí a sala de apoio aos deficientes visuais a qual oferecia auxílio através de monitoras que faziam a leitura de livros e materiais, pois a universidade não possuía computador adaptado, nem livros em braile.

Enfim, depois que perdi a visão me senti melhor estudando, pois não havia mais dúvida de minha deficiência. Com a baixa visão era um sofrimento: os professores não entendiam meu problema e as necessidades que tinha. Devido minha falta de experiência sofria calada com os abusos dos educadores. Posteriormente, com a cegueira, aprendi que precisamos correr atrás de nossos direitos e mostrar que temos capacidade para atingir nossos objetivos apenas utilizando materiais específicos a nossa deficiência.”

(Carlise Kronbauer)

O preconceito velado no mercado de trabalho

A leitora Carlise Kronbauer enviou ao Três Gotinhas um depoimento sobre sua percepção quanto ao mercado de trabalho para pessoas com deficiência. Carlise é graduada em História e está concluindo Pós-Graduação em Pedagogia Empresarial e Educação Corporativa. Vale a pena conferir o texto dela!

“Observo todos os dias as vagas de trabalho reservadas a pessoas com deficiência nos sites da internet e, devido minha indignação, resolvi escrever. As empresas tem a visão que as pessoas com deficiência só podem trabalhar como auxiliar disso ou aquilo, não podendo ser analista, coordenador, gestor etc… Acompanho há meses a disponibilização de vagas de muitas empresas recrutadoras e as ofertas são sempre as mesmas – não condizentes com as pessoas com graduação ou qualificação mais avançada.

Acredito que nós, pessoas com deficiência, merecemos um trabalho mais digno do que as vagas ofertadas. Atualmente, estamos nos capacitando e qualificando para atingir níveis mais elevados de cargos. Muitos cegos, como eu, já possuem graduação e pós-graduação completa. Considero uma ofensa a oferta constante de cargos com salários miseráveis, que na conjuntura atual não conseguem suprir nossas necessidades básicas.

Dessa forma, gostaria que as empresas viabilizassem empregos condizentes com a formação do candidato e com realidade do mercado. É frequente as empresas recrutadoras culparem as próprias pessoas com deficiência por falta de qualificação, mas elas estão desinformadas sobre o currículo de muitos cegos por exemplo. É preciso que a visão das empresas se amplie para que possamos realmente vivenciar a inclusão, pois o mercado mudou. Estamos mais qualificados e competitivos do que no passado.

Enfim, desejamos um trabalho digno igual ao das pessoas sem deficiência. Os maiores cegos são aqueles que não enxergam que temos capacidade para atingir horizontes mais altos!”

(Carlise Kronbauer)

Caso você tenha alguma experiência para compartilhar com outros leitores, faça como a Carlise, envie pra mim: mariana.baierle@uol.com.br. Terei o maior prazer em publicar! Abraço a todos