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PARA MUITO ALÉM DA MAQUIAGEM

Sou jornalista e durante algum tempo trabalhei em televisão com reportagem e apresentação de um programa. Era uma espécie de pré-requisito para aparecer no ar estar completamente maquiada. A maquiagem para TV tem a particularidade de que precisa ser forte, bem intensa, pois o rosto fica bastante exposto pelas câmeras e qualquer imperfeição na pele acaba sendo potencializada. A emissora que eu trabalhei era pública e não contava com um maquiador, então era os próprios profissionais que se arrumavam para entrar no ar.

Como minha visão não propicia enxergar detalhes, aprendi essa lição sobre a quantidade e intensidade de maquiagem de forma, no mínimo, inusitada. Um dia iria fazer uma espécie de teste, um programa-piloto, para saber se eu iria ficar na apresentação de um programa ou não. Ciente de que teria que estar maquiada, acordei mais cedo e antes de sair de casa pedi que minha mãe fizesse uma maquiagem em mim. Como eu não era uma pessoa acostumada a me maquiar, ela fez algo simples, sem carregar em nada. O problema é que acabou ficando uma maquiagem discreta demais para os padrões televisivos. Quando cheguei lá, certa de que estava pronta e linda para o teste, minha chefe na época perguntou:

- Quando tu vai te maquiar?

Com vergonha de dizer que já havia me maquiado e com receio de que não tivesse ficado boa, pensei rapidamente em uma resposta e disse:

- Pois é, para mim é complicado me maquiar, vou pedir ajuda para alguma colega.

E foi o que fiz. Foram várias repórteres e produtoras que se voluntariaram para me ajudar nesse primeiro dia. E o mais fantástico é que deu tudo certo no teste e eu fui muito elogiada. Mesmo sem ler o teleprompter (aquele equipamento que fica passando o conteúdo para o apresentador ler). Também não enxergava as câmeras. Os colegas do estúdio foram fantásticos me indicando com um estalar de dedos o momento de começar cada bloco e indicando com um papel branco a direção para qual eu deveria olhar. Isso porque o papel branco se destacava mais, no estúdio. As câmeras eram escuras e não tinham contraste com o fundo preto das paredes almofadadas do estúdio. Foram o Chiquinho e o Polga duas das pessoas mais especiais que me acompanharam nesse período de estúdio.

Para quem pensa que as soluções de acessibilidade e inclusão tem que passar pela aquisição de equipamentos caros e sofisticados vale destacar que foi uma simples folha branca de papel a solução para resolver a questão do meu direcionamento. Algumas vezes abria o programa olhando para uma câmera, tinha que virar para o entrevistado, fazer a pergunta e depois olhar para outra câmera. Se não tivesse o papel branco na nova câmera eu certamente ficaria perdida procurando para onde olhar. Com essa solução simples resolvemos toda a questão de posicionamento no estúdio. Acho inclusive que o fato de eu não ficar presa ao teleprompter, como acontecia com os demais colegas, me deixava mais desinibida e espontânea.

Somado a isso havia o fato de que eu não podia contar com as letras externas escritas no telepronpter para eu ler e saber o que deveria dizer ou perguntar ao entrevistado. Então todo o conteúdo do programa deveria estar na minha mente, o que fazia eu me preparar muito antes de entrar no ar e iniciar o programa – que não era uma gravação, era uma transmissão ao vivo. Chegava a brincar que tinha um teleprompter na mente e ficava imaginando as letrinhas passando na minha frente enquanto apresentava.
A abertura do programa, o nome dos entrevistados, tudo eu acabava sabendo de cor. Havia o ponto eletrônico no meu ouvido que muitas vezes me soprava informações importantes, mas eu precisava estar focada em conduzir as entrevistas para que os convidados pudessem se expressar e sentirem-se a vontade para isso. Muitas vezes precisava um pouco de psicologiae jogo de cintura porque os convidados não se sentiam à vontade em frente Às câmeras ou era a primeira vez que davam uma entrevista.

Comecei a apresentar o programa semanalmente e por alguns períodos apresentei diariamente. No início uma das coisas que me deixava insegura era o tema da maquiagem e como iria resolver a questão. Acabei optando por contar com a ajuda de colegas para me arrumar antes de qualquer gravação ou entrada ao vivo. Com o tempo, uma amiga que era estagiária na época e duas colegas foram me encorajando e me dando dicas para que eu pudesse fazer em mim mesma (Obrigada Kathlyn, obrigada Amanda! Obrigada Lirian!).

Fui praticando diariamente, então aos poucos aprendia e ganhava confiança nesse campo da maquiagem, até então desconhecido. Passei a memorizar as testuras das bases, pós e iluminadores, sombras etc. Decorava nas caixinhas qual era a ordem de passar cada coisa, qual a posição de cada item que iria usar. No início fazia com a ajuda delas, depois comecei a fazer sozinha. Mesmo assim, sempre pedia para conferirem para mim, pois com a minha baixa visão nunca conseguia saber se tinha algo borrado, se algo não tinha ficado uniforme, se havia caído alguma coisa na minha roupa, se o cabelo estava bom, entre uma infinidade de dúvidas.

Com o tempo elas já apenas esperavam eu me arrumar toda e ficavam esperando para a conferência final. Geralmente tinha uma ou outra coisinha para ajeitar, mas a grande produção era feita por mim.

Trabalhei durante seis anos para a Fundação Piratini, mantenedora das emissoras TVE e rádio FM Cultura. Durante um período eu apresentava o programa Cidadania. Em outros momentos fazia reportagens no telejornal da TVE e no TVE Repórter. Por fim, trabalhei na rádio FM Cultura também. Foi um tempo bom e que deixa saudades dos tempos áureos desses dois veículos, tendo em vista que a Fundação Piratini, com muito pesar, foi extinta pelo governo do Estado do RS. De qualquer forma, assim como os programas que produzimos e as pautas que realizei sei que os dois veículos deixaram suas marcas positivas na formação da audiência, bem como na formação cultural e educativa da sociedade.

Foi durante o período que trabalhei lá que conheci uma das pessoas mais especiais da minha vida, meu marido Rafael. Nos aproximamos, aliás, em uma reportagem, na qual ele foi meu entrevistado. Fui fazer uma matéria sobre paradesporto. A modalidade escolhida foi a vela adaptada. Ele tem baixa visão e junto com colegas cadeirantes, com mobilidade reduzida ou com algum membro amputado praticavam vela adaptada em Porto Alegre, que é banhada pelo lago Guaíba.

Naquela oportunidade eu e o Rafa já estávamos interessados um no outro e gravar a entrevista com o grupo foi um motivo para nos encontrarmos. O Rafa, com seu desprendimento e ousadia, chegou a roubar o microfone da mão da repórter no final da entrevista e disse que iria me entrevistar. Fiquei completamente envergonhada e aquela entrevista foi o primeiro passo para darmos prosseguimento nas nossas conversas e início do namoro. Mas o que eu queria contar sobre ele está relacionado ao tema inicial deste relato, que é a questão da maquiagem.

Desde a adolescência, quando conhecia um carinha interessante na escola, faculdade ou em algum outro ambiente, me preocupava muito se ele iria se interessar por mim porque naquela época não costumava me maquiar, nem mesmo fazia coisas diferentes no cabelo. Quando tinha uma festa ou evento especial pedia sempre auxílio para minha mãe ou alguma amiga. Na adolescência não usava bengala, mas no início da fase adulta comecei a usar porque minha visão estava pior. Outra dúvida que me questionava é se os homens iriam se interessar por uma mulher com bengala e com deficiência visual.

Durante muito tempo carreguei essa insegurança e escondia a bengala, mesmo cometendo algumas gafes. Era como se eu precisasse me aproximar muito da pessoa para lhe contar uma espécie de “segredo”, que era o fato de que eu tinha baixa visão. Disfarçava o máximo que podia as dificuldades de enxergar, sempre me aproximando devagar dos objetos e das pessoas, evitando os restaurantes buffets que sempre foram mais complicados por não identificar as comidas, caminhando cautelosamente, olhando para o chão para não cair e até seguindo as pessoas na rua para saber o caminho por onde deveria andar. Com o Rafa isso ocorreu de forma diferente, pois o fato de eu ter deficiência visual acabou nos aproximando mais e trazendo muitos assuntos em comum.

Quanto à maquiagem, ele acabou quebrando todos os meus próprios paradigmas e preconceitos. Um dia ele me disse que gostava mais de mim sem maquiagem porque podia sentir o cheiro da minha pele e o meu perfume ficava mais intenso. Quando eu estava maquiada depois de sair da TV eu tinha muito pó e coisas artificiais no rosto, podendo até manchar sua roupa conforme nos abraçávamos. Ele afirmava sempre que eu era linda ao natural e que até a textura do meu rosto não era a mesma com a maquiagem. Além disso, o próprio cheiro da maquiagem e da base eram artificiais.

Sei que essas observações dele têm relação com o fato de que ele também tem baixa visão e provavelmente não percebia a diferença da minha aparência com a maquiagem. Mas isso me fez pensar sobre as diferentes formas de beleza e sobre a sensibilidade desenvolvida por pessoas com deficiência visual. Aspectos que são importantes para os outros talvez não tenham a mesma relevância para nós. De alguma forma ele falar isso foi libertador. Na verdade os aspectos que são importantes para uma pessoa não necessariamente são importantes para outra. E no caso de pessoas com deficiência visual a beleza poderia ser percebida de diferentes maneiras.

Dessa forma, começamos a namorar e eu pensei que ao invés de me preocupar com a maquiagem devia me preocupar mais com os perfumes que usava. Foi então que fui ainda mais surpreendida – e acho que esse é o segredo da nossa relação. Tinha vários perfumes, mas sempre um era meu favorito. Foi quando percebi que mais de uma vez ele disse que adorava o meu perfume. Mas para meu espanto dizia isso justamente em dias que não estava com perfume nenhum, o que me deixava ainda mais intrigada. Falei para ele que não estava usando perfume e ele repetiu então que eu estava linda com a minha essência. Disse que gostava de me abraçar, beijar e me sentir com toda minha naturalidade.

Esse foi um início muito diferente de relacionamento, diferente de qualquer história que tenha tido antes. Primeiro porque era o amor da minha vida, hoje meu marido, que eu amo muito. Segundo porque acredito que tenha dado tão certo em função de que me voltei para dentro de mim mesma, para tentar mostrar para ele o que havia além da maquiagem, além do rosto cheio de base e pó para televisão ou além do perfume cheiroso de marcas famosas. Procurei mostrar a mulher linda que existia em mim – por dentro e por fora. Ele passou a me conhecer, a desbravar comigo o mundo, descobrir segredos e topar todo tipo de aventuras ao meu lado. Assistia os programas que eu apresentava na TV, mandava comentários, participações e comentava comigo sobre o conteúdo e as pautas tratadas.

Penso hoje que talvez essa história jamais tivesse avançado se eu seguisse preocupada com a maquiagem e com o exterior. Nada como o pé na grama, um banho de chuva, a aventura num camping para a guria de apartamento, as longas caminhadas, o cabelo escabelado e a sensação do barco a vela na reportagem ajudando a aumentaro frio na barriga. Hoje seguimos nas aventuras, com muitas pedaladas com o grupo de ciclismo da Associação de Cegos do Rio Grande do Sul (ACERGS), coordenado pelo Rafa. Andamos em bicicletas duplas, onde quem enxerga vai na frente e a pessoa com deficiência visual vai atrás. Novamente a maquiagem desaparece: colocamos capacetes, a mulherada prende o cabelo, o suor escorre no rosto e o mais importante é a adrenalina, o vento no rosto e as emoções.

Recentemente realizamos juntos um dos sonhos da minha vida: voamos de balão. Foi algo incrível. O balão voando, o vento soprando, o flutuar nas alturas, a sensação de estar lá em cima, a liberdade, a decolagem, o pouso e tudo mais. Rafa, obrigada por ser o meu companheiro de todas as horas. Das viagens de barco, de avião, de ônibus, das pedaladas de bike, dos piqueniques, dos acampamentos, dos shows inesquecíveis, das músicas e das horas ruins também.

Hoje estou em um trabalho novo na UFRGS, onde não tenho a exigência de me maquiar, mas meu lado vaidoso faz com que eu me maquie todos os dias. Faço esse exercício externo de passar maquiagem, mas na verdade estou olhando para dentro de mim e cuidando do meu lado emocional e psicológico. Tenho uma nova colega, que se tornou uma grande amiga, Renata, que me assessora e avisa se não borrei nada.

Passo base no rosto, blush, rimel, lápis e batom. Olho no espelho e não percebo nada diferente. Fico igual a antes. Chego a imaginar a mudança no visual, mas realmente qualquer transformação não me aparece visualmente, mas emocionalmente. Descobri por que gosto – e admito que gosto muito – de me maquiar. Passar base o rosto significa fazer um carinho na própria pele, significa parar por um instante, olhar para o espelho e não ver diferença nenhuma e pensar o quanto sou uma mulher bonita. Significa lembrar que me amo, com ou sem visão. Mesmo que minha visão esteja diminuindo a cada dia, mês ou ano – o que me causa muita dor e lágrimas -, amo e valorizo o pouquinho de visão que tenho. Amo fazer carinho na minha pele todos os dias pela manhã. Passo a base com protetor solar para prevenir as manchas e o envelhecimento.

Em meu novo trabalho como servidora pública da UFRGS posso passar uma maquiagem leve, sem a necessidade do pó – que tinha que usar em grande quantidade na televisão. Passo rimel transparente, que também é uma massagem nos sílios. Passo blush bem discreto, gloss só para dar uma corzinha. Faço tudo com o auxílio do tato e das outras percepções. Depois desse momento de beleza olho para o espelho e penso que estou linda, que sou linda, que me amo, que o dia será maravilhoso. As grandes belezas da vida talvez nunca possam ser vistas com a visão. Para além da maquiagem e do universo exterior há um mundo a ser desbravado e construído com mais amor e menos superficialidades.

Uma obra urgente para o nosso tempo

Por: Fernanda Bastos, jornalista

Estamos passando por um período bastante difícil em nosso País. Além de as pessoas se negarem a ouvir as outras, alguns grupos políticos vão além, e querem impedir a evolução de quem quer sair da escuridão da ignorância. Se há dúvidas quanto a esse cenário, vide o caso da tentativa de criar uma campanha pública para vetar a vinda da pensadora Judith Butler ao Brasil e ainda a iniciativa do movimento Escola Sem Partido, que tentar fazer com que o Enem passe a permitir a intolerância e o incentivo a crimes, como o de racismo, nas redações.
Esses dois casos — poderia citar muitos outros — deixam claro que, para alguns, não basta fugir da busca de conhecimento e troca entre sujeitos, é necessário impedir que o outro siga em evolução.

Nessas iniciativas, fica evidente que, para determinados setores da nossa sociedade, é preciso negar o direito do outro; há um desejo implícito ou explícito de violar os direitos humanos.
E ainda vale observar o fato de que só o brasileiro vai perder com essa falsa disputa: as ideias de Butler seguirão circulando e impactando a vida de milhares de pessoas, bem como a noção de direitos humanos permanecerá como o alicerce para sociedades minimamente seguras.
Diante desse cenário trevoso, entretanto, sobressaem projetos que nos inspiram e fazem com que olhemos para a diferença ignorada no cotidiano. É o caso do livro Histórias de Baixa Visão, obra organizada pela jornalista Mariana Baierle que reúne 19 autores para falar dessa condição que atinge, ao todo, seis milhões de brasileiros.

Nos textos, os autores remexem no passado, buscando como se deu a perda do sentido, que pode ser originada por diferentes causas, e contando como passaram a conviver com a baixa visão. Muitos foram obrigados a ressignificar a própria existência, lidando com preconceitos e a dificuldade de aceitar o entre-lugar causado por ficar entre a cegueira e visão total.

Esse local muitas vezes gera incompreensão e intolerância. Relatos como o de Grazieli Dhamer e André Werkhausen Boone mostram que as dificuldades podem começam na escola, ambiente que deve ser moldado para lidar com a pluralidade, mas esbarra na falta de investimento e formação adequada. Na fase adulta, tomar a rua pode mostrar que são poucos os aliados e mutos os riscos até aliar independência e segurança. Histórias como a de Rafael Braz atestam que faltam condições e não esforço para que as pessoas com baixa visão possam ocupar empregos em qualquer setor e com todo tipo de qualificação. A superação da falta de entendimento e condições é o foco de outros relatos, mas o elemento que parece ser comum é a aceitação, processo descrito exemplarmente no emocionante relato de Rafael Martins sobre seu desejo de dirigir.

Cabe ainda à organizadora Mariana Baierle, logo no início, fazer um panorama da condição deste grupo, assinalando suas demandas e sua constituição nos campos político e legal.

Na minha leitura, o grande mérito da obra é sua constituição, pois não é sobre pessoas de baixa visão, mas com pessoas de baixa visão. Explico: o livro foi organizado e escrito por pessoas que vivem nessa condição e, portanto, do ponto de vista da narrativa, não há uma lupa voltada a esses sujeitos, mas um microfone direcionado às suas bocas, para que tenham voz e possam ser ouvidos. Isso faz da obra material de interesse para professores, estudiosos e também o cidadão comum, especialmente o do bem. Reafirmo: é uma obra sobre baixa visão com pessoas de baixa visão, mas não só voltada para elas.

Um conhecimento mínimo do mercado editorial brasileiro permite imaginar como foi árduo o trabalho para que essa obra chegasse aos leitores. O esforço conseguiu bancar a obra impressa pela editora CRV, mas o livro terá ainda volumes em braile e audiolivro, resultado de diversas parcerias. Isso permite que o texto chegue a mais pessoas e de forma acessível, grande mérito do empenho da organizadora. Histórias de baixa visão será lançado na Feira do Livro de Porto Alegre, no dia 18 de novembro às 15h na Sala Oeste do Santander Cultural. É por conta da importância indiscutível dessa obra como material de vivência e também marcação política em prol dos direitos humanos que estarei lá pronta para ouvir os autores e prestigiar essa iniciativa.

Pelo eco das nossas vozes

Ao longo de quatro anos e sete meses trabalho na Fundação Piratini (TVE e Rádio FM Cultura), que está em fase de extinção pelo governo do Estado do RS. Primeiro como contratada em regime emergencial e depois como concursada efetiva, posso dizer que se houve algo que guiou meu trabalho ao longo desse tempo todo foi o AMOR. Sim, AMOR!!! AMOR pelo Jornalismo (profissão que escrevo, propositalmente, de letra maiúscula), AMOR pelas causas que acredito, AMOR pela Comunicação Pública, AMOR pelas pessoas, AMOR pela Acessibilidade e pelos Direitos Humanos, AMOR ao mundo – que nos abriga e anda tão conturbado…

Aprendi com os colegas e acredito que eles tenham aprendido comigo também. Pude ensinar e aprender muito com a convivência diária. Cheguei em uma Fundação em que pouco – ou nada – se falava sobre Acessibilidade. Hoje, o tema é pauta recorrente na programação do rádio e do telejornalismo, assim como dos diversos programas. Tenho certeza que minha energia e trabalho concentrados nessa área contribuiram, de alguma forma, com esse processo. Tenho orgulho de ver que, se em outras emissoras muitas vezes o tema é tratado com sensacionalismo e sem o respeito que merece, eu e meus colegas conseguimos fazer um trabalho sério e diferenciado.

Cheguei na Fundação de um jeito e tenho certeza que – se for sair de lá de fato – sairei completamente diferente e muito melhor do que entrei. Plantei sementes e muitas delas já se tornaram árvores, criando raízes profundas e dando bonitos frutos. São comportamentos, ideias e atitudes que mudaram ao meu redor. Às vezes a gente tem a vontade de mudar o mundo, mas vê que não é possível e fica feliz se consegue transformar um pouquinho o ambiente ao nosso redor. Sim, acredito que o espaço ao meu redor tenha sido transformado positivamente.

É a energia, o trabalho e o empenho de todos sendo utilizado para produzir conteúdos de fundamental relevância social. Não falo aqui apenas sobre os direitos das pessoas com deficiência – causa na qual me identifico e me considero uma ativista -, mas também sobre os direitos das mulheres, população LGBT, idosos, negros, quilombolas, indígenas, imigrantes e minorias em geral. Falo em pautas relacionadas ao trabalho, educação, conscientização, empoderamento, luta contra a discriminação, igualdade de oportunidades etc. Falo aqui em uma TV e uma Rádio que vi fazerem isso com toda a inteligência, intensidade e pulsação que estiveram ao seu alcance.

Não queria escrever esse texto com um tom de despedida – até porque o destino é incerto e há muita coisa ainda para rolar pela frente. Queria escrever esse texto com um tom de homenagem e agradecimento aos colegas por tudo que vivi com eles até hoje. Manifesto aqui o meu AMOR por tudo isso. Tenho orgulho de ter ajudado a escrever a história da FM Cultura e da TVE. Escrevo esse texto também para dizer que nós – funcionários públicos, concursados, de carreira – não somos um bando de vagabundos, como já fomos chamados inúmeras vezes pelo próprio governo. Escrevo para dizer que se – de fato – formos embora NINGUÉM IRÁ NOS CALAR. A história da TVE e da Rádio FM Cultura estarão sempre presentes na nossa sociedade, na história da cultura, das artes, dos movimentos sociais, das pessoas com deficiência e da população do nosso Estado como um todo. E falo aqui das LEGÍTIMAS TVE e Rádio FM Cultura, veículos da Fundação Piratini. Qualquer veículo – ou projeto – que venha a se utilizar dos nomes dessas emissoras não podem sequer ser considerados pela opinião pública, ouvintes e espectadores – que são o público-alvo do nosso incessante e verdadeiro trabalho.

Escrevo para relembrar, com alegria e carinho, as coberturas que fizemos na praia, na serra, em Porto Alegre e no interior. Escrevo para lembrar o frio na barriga das entradas ao vivo. Escrevo para lembrar a adrenalina das transmissões diretamente da Expointer, do Festival de Cinema de Gramado, da Feira do Livro, no litoral, dos estúdios, entre tantos outros eventos. Escrevo para lembrar o entusiasmo e o envolvimento de todos para que tudo desse certo. Sim, e tudo deu certo para a Fundação Piratini – por um tempo. Nada nessa vida é eterno, eu sei. E muitos amigos e familiares nos relembram isso para tentar nos acalmar. Nada pode ser para sempre… Mas, mesmo que tudo fuja ao nosso controle e acabe antes do desejado, a memória, a história, a alegria e os nossos sonhos – ah, esse sim! -, serão para sempre.

Antes de finalizar quero compartilhar com vocês um trabalho que fiz recentemente na FM Cultura. É uma série de reportagens sobre APLICATIVOS DE CELULAR E TECNOLOGIAS QUE MELHORAM O COTIDIANO DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA. Sem entrar em detalhes do conteúdo (que vocês poderão conferir pelo link da rádio que disponibilizo no final desse texto) gostaria de dizer que esse foi um trabalho especialmente difícil em virtude do aperto no peito que me deu falar sobre esse tema – tão significativo para mim e para outras pessoas com deficiência. Quando escutei a primeira reportagem da série indo ao ar, não pude conter uma lágrima. Foi uma espécie de alegria e orgulho pelo trabalho realizado, junto com sofrimento e angústia. Alegria indiscutível por poder apresentar as possibilidades tecnológicas no que tange à acessibilidade aos nossos ouvintes. Mas simultaneamente foi um momento de dor, tristeza e pesar de que essa pode ser a última – ou uma das últimas – série que faço na Rádio.

Apesar de tantos pesares, tenho a certeza de que MINHA VOZ NÃO SERÁ CALADA. Isso me faz lembrar um texto que fiz na oitava série e que ganhou primeiro lugar no concurso de redação do colégio. O título era “A VOZ, JÓIA PRECIOSA”. Ele falava sobre um rapaz que teve um problema de saúde, perdeu a voz e, mesmo com inúmeros tratamentos, não conseguiu recuperar a fala. Naquela época que escrevi o texto talvez eu não soubesse a profissão que seguiria depois, mas já sabia que a voz é, de fato, “preciosa”. Hoje aprendi que a pessoa pode não ter a fala, ser surda, cega, não ter algum dos membros, não caminhar ou ter qualquer outro comprometimento. E seja como for, seja com cordas vocais funcionando ou não, nada pode calar a expressão e a manifestação das pessoas.

Tenho certeza que, onde quer que eu esteja no futuro, vou continuar me posicionando e seguindo os caminhos que acredito. Nada substitui a sensação de viver com a consciência tranquila, fazendo aquilo que acreditamos. Alguém pode tentar nos calar, apagar o nosso canal, desligar a nossa rádio, mas ninguém poderá nos calar! Nossas vozes seguirão produzindo ecos, seja na Fundação Piratini, seja em outros veículos, nas ruas, nas avenidas, nas praças… Nossa voz terá eco por toda a parte! Basta você procurar e vai nos ouvir! Resta a esperança de que possamos ser ouvidos nos mesmos canais que até hoje estivemos. Resta a nossa resistência. Resta pedirmos o apoio de toda a população.

Confira o link da série que comentei:

http://www.fmcultura.com.br/conteudo/3576/tecnologia-facilita-deslocamento-de-pessoas-com-deficiencia-no-brasil-inteiro

Outros abusos no mesmo concurso: relato de Rafael Braz

Desde que publiquei aqui no Três Gotinhas meu relato contando o que aconteceu no concurso da Secretaria da Saúde do RS tenho recebido diversos relatos de outras pessoas que também sofrem com a falta de acessibilidade em concursos públicos. Segue abaixo o relato de Rafael Braz, que também tem deficiência visual e prestou o mesmo concurso. Ao contrário de mim, ele solicitou justamente fazer a prova com um ledor. E vejam tudo o que aconteceu durante a prova dele!

“Mariana, assim como aconteceu contigo no concurso público para a Secretaria Estadual da Saúde, organizado e realizado pela Fundatec, também tive uma série de problemas para fazer a prova. Primeiramente, fiz a minha inscrição para o cargo de Assistente em Saúde – Nível Médio, com a entrega do laudo fornecido pelo meu oftalmologista, com todas as informações solicitadas no edital. Anexos IV e V também preenchidos pelo mesmo médico, com todos os dados requeridos para concorrer pelas vagas para pessoas com deficiência e para solicitar condições especiais para fazer a prova, no meu caso, o auxílio de um profissional que me leia os conteúdos e preencha as respostas que eu vou informando ao longo da prova.

Quando a Fundatec divulgou a homologação das inscrições, verifiquei que somente estava concorrendo pelas vagas reservadas, mas que a minha solicitação de ledor havia sido indeferida, com a informação de que determinados itens do edital não tinham sido preenchidos. A partir disso, eu e minha esposa conferimos todos os itens, pois antes de entregar na Fundatec, guardamos cópias de todos os documentos entregues, e constatamos que não havia erros ou faltas na inscrição e na solicitação de condição especial para a realização da prova.

O próprio site da Fundatec disponibilizou um link para recursos contra esses indeferimentos, no campo indicado, elaborei meu recurso, explicando a situação, com minhas palavras, informando que sequer adiantaria eu comparecer no dia e local da prova sem a disponibilização do ledor, pois não teria como ler a prova. Nesse momento, estava certo de que eles concederiam, pois há mais de cinco anos, fiz concurso público com eles e obtive todo o atendimento solicitado corretamente.

Na semana anterior à prova, vi que o recurso também havia sido indeferido, e nesse momento, contatei meu advogado, que obteve na Justiça o auxílio de ledor para mim. No domingo, quando cheguei para fazer a prova, procurei a coordenadora responsável no prédio indicado no site da Fundatec. Ela me encaminhou juntamente com a ledora para a sala de aula original da homologação, conforme a ordem alfabética do meu nome (coletiva). Eu e a ledora não estávamos acreditando. O fiscal da sala, totalmente despreparado, nos encaminhou para o fundo da sala de aula, me perguntando se durante a prova eu iria precisar conversar algo com a ledora (será que ele pensou que ela faria a prova sozinha para mim? Ou será que ele pensou que ela apenas iria me ver fazer a prova sozinho?), respondi a ele que sim, que falaria com ela a todo momento, durante toda a prova.

Enquanto eu e ela estávamos no fundo da sala, conversando sobre o quanto todos nós, eu e os demais candidatos sentados ali ao lado, seríamos prejudicados por fazermos a prova no mesmo ambiente, a ledora foi ao fiscal e à coordenadora para reclamar por uma sala exclusiva para nós, como sempre faço os concursos públicos. Após alguns instantes, a coordenadora veio até mim e informou que eu deveria aguardar a leitura das regras do concurso que é feita antes da prova e, depois do sinal sonoro avisando o início, ela viria nos acompanhar, eu e a ledora, até a nova sala de aula.

Então, até o momento, estávamos nessa sala, no fundo do corredor do quinto andar do prédio, e, após o sinal de aviso do início, veio a coordenadora e nos guiou até a última sala do final do corredor do andar seguinte (sexto andar). Ao chegarmos lá, a sala estava ocupada e ela então me pediu desculpas, dizendo que errou o andar, que a sala correta era no sétimo andar. Lá fomos nós, tudo de novo, Finalmente, no final do corredor, a última sala estava vazia, e lá começamos a fazer a prova.

A partir desse momento, consegui desenvolver a prova de Língua Portuguesa, porém, após cerca de uma hora e meia ou duas horas do início, chegou o lanche da ledora. Ela não quis parar para comer, para não me prejudicar no tempo para fazer a prova, com isso, um fiscal disse que iria solucionar e, após alguns minutos, apareceu na sala com outro rapaz, que me pareceu ser outro fiscal, para ler a prova pra mim enquanto a ledora fazia o lanche. O rapaz estava super bem intencionado, mas o coitado não tinha nenhuma prática necessária para me auxiliar, pude perceber que ele estava muito inseguro e tenso. Consegui apenas fazer duas questões com ele. A ledora comeu o mais rápido que pode para voltar logo. Continuamos a prova e fomos interrompidos mais umas 3 ou 4 vezes, em razão de um documento que fiscais e coordenadores levavam para ler para mim, e para que eu assinasse. O documento se referia à mudança de sala. Como na divulgação oficial dos locais, eu fui designado para determinada sala e, no dia da prova, mudei para outra, era necessário um documento registrando a transferência, assinado por mim, pela ledora, por testemunhas, fiscais e coordenadores. Assim, fui interrompido para a leitura do mesmo, para assinaturas, conferências, etc.

A prova também contava com questões de Informática e de Raciocínio Lógico. No entanto, nenhuma das duas provas tinha material de apoio com a descrição de imagens e símbolos para que a ledora pudesse me auxiliar adequadamente durante a leitura das questões e alternativas das respostas. Ou seja, ela tinha de me descrever conforme o seu próprio conhecimento ou não das referidas imagens e símbolos, e, desse modo, eu não tinha informações suficientes para responder precisamente as questões, pois faltavam dados e os mesmos passavam pela subjetividade da ledora, que me relatava o que podia, se sentindo bastante constrangida e indignada. Aliás, dessa profissional, não tenho do que reclamar, ela fez o que estava ao seu alcance para não me prejudicar.

Enfim, o concurso foi muito mal organizado, houve muito desrespeito e desconsideração para com as pessoas com deficiência, com o não atendimento das solicitações de condições específicas para a realização da prova, de maneira digna e adequada, além da presença de coordenadores e fiscais despreparados e, nós, pessoas com deficiência, percebendo o despreparo, a falta de estrutura e tudo mais, durante a aplicação da prova. Algo precisa ser feito, esse tipo de situação não pode se repetir, é um absurdo!!!”

(Rafael Braz)