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Aventura no caixa eletrônico

Essa semana consegui usar o caixa eletrônico pela primeira vez sem precisar da ajuda de ninguém através do sistema de áudio. Sempre que precisava sacar dinheiro, dava o cartão para algum familiar tirar para mim ou entrava na agência do banco e retirava o dinheiro com um funcionário. Situação muito trabalhosa e incomoda, pois eu dependia do horário de funcionamento do banco (que, aliás, já é super reduzido) e ainda tinha que me dirigir até uma agência.

Quando fiz minha conta no Banco do Brasil dois anos atrás para receber a bolsa do mestrado os funcionários não souberam me explicar como eu fazia para usar o caixa eletrônico. Eu acabei então me acostumando – infelizmente – ao fato de ter sempre que entrar na agência na agência e retirar dinheiro no caixa com um funcionário.

Agora, cansada com essa situação e com o incentivo dos amigos Felipe Mianes e Fabiana Guedes, voltei à agência e pedi que resolvessem a questão. Fui enfática e expliquei o quanto era estressante ter que sempre entrar na agência e não poder retirar dinheiro em qualquer lugar que possuía um caixa, mas depender de da existência de uma agência e de seu horário de funcionamento.

Novamente os funcionários não sabiam como proceder para que eu pudesse usar o caixa eletrônico com os fones de ouvido. Fiquei cerca de uma hora no banco esperando enquanto os funcionários tentavam descobrir como me ajudar. Dessa vez eles estavam com mais boa vontade e disposição, mas ainda assim não sabiam como solucionar a questão.

Não tinham nenhum outro cliente com deficiência visual naquela agência, ou seja, nunca tinham realizado aquele procedimento. Ligaram para outras agências e instâncias superiores, até que fizeram uma conferência com os gerentes de Brasília. E nada de alguém saber como fazer a liberação para eu usar o caixa eletrônico.

No fim das contas, quando finalmente conseguiram me cadastrar como deficiente visual, disseram que o sistema demoraria 24 horas para reconhecer essa característica e autorizar o uso do caixa com os fones. Acabei tendo que retornar outro dia à agência para finalizar o processo.

Apesar do transtorno, posso dizer que valeu a pena o esforço. Foi uma experiência fantástica. Ao inserir os fones no caixa, a máquina começa a dar todas as opções de saldo da conta corrente, saldo da poupança, transferência, pagamentos, aplicações, saque, enfim, todas as operações que podem ser realizadas normalmente num caixa eletrônico. É preciso digitar apenas no teclado numérico a senha do cartão e os dígitos correspondentes aos comandos desejados.

Para segurança do usuário, a tela fica escura para que outras pessoas em volta não fiquem olhando suas operações. É preciso lembrar de sempre carregar o próprio fone na bolsa, pois os bancos não os disponibilizam.

Foi fantástica a experiência. Para quem sempre se incomodou com os bancos e a falta de acessibilidade nesses locais, isso representa um grande avanço na minha vida enquanto cliente. Me senti muito feliz e realizada.

Retirei dez reais apenas para testar e, de fato, deu certo. Foram os dez reais mais emocionantes e satisfatórios de toda minha vida. Não terei mais que entrar na agência, depender de horário do banco ou de outras pessoas para retirarem dinheiro e outras operações. A autonomia e a liberdade nas pequenas coisas do dia a dia têm um sabor especial.

Só gostaria que nas próximas vezes eu tenha mais saldo para retirar mais dinheiro…

A difícil busca por um emprego

Alguém já viu um anúncio de jornal procurando um jornalista ou professor com deficiência? Se encontrarem, por favor me avisem! Ou um anúncio procurando um advogado, um medico, um arquiteto com deficiência? Infelizmente, não há oferta de vagas para pessoas com deficiência com curso superior. É como se a pessoa com deficiência não pudesse estudar e ter uma boa formação.

Mas vagas como auxiliar de cozinha, auxiliar administrativo, serviços gerais, recepcionista, telemarketing, vendedor, entre outras, surgem aos montes. Não que não devam existir essas vagas – é ótimo que existam! O problema é que existam somente essas vagas.

Eu, que tenho minhas ressalvas quanto ao sistema de cotas em sua essência (como já comentei em postagens anteriores), estou nesse momento me deparando com as dificuldades e armadilhas na busca por um emprego tendo deficiência visual.

Desde o final do ano passado, com o fim do mestrado se aproximando, comecei a enviar currículo e a me cadastrar em algumas agências de emprego focadas na contratação de pessoas com deficiência.

Sou formada em Jornalismo pela PUCRS e tenho Mestrado em Letras pela UFRGS. Tenho deficiência visual parcial (baixa visão) – o que me traz algumas dificuldades -, mas que não me impediu até hoje de trabalhar, de estudar e de buscar o meu espaço.

Com a Lei de Cotas, as empresas com mais de 100 funcionários são obrigadas a destinar entre 2 e 5% de suas vagas para pessoas com deficiência (PCDs), além de investir em tecnologia e adaptações para o ambiente de trabalho. Os concursos públicos também destinam 5% de suas vagas para pessoas com deficiência.

É uma pena, mas as leis brasileiras chegam a ser hilárias. São muito bonitas e interessantes na teoria. Contudo, muito difíceis de serem cumpridas na prática.

Já ouvi muitos empresários comentarem sobre a dificuldade do preenchimento dessas cotas por falta de pessoas qualificadas. Antes de começar a procurar emprego, pensei – erroneamente – que, diante desse cenário, não seria tão difícil encontrar uma vaga.

Fui surpreendida, entretanto, com a realidade que se apresentou diante de mim (e que eu já observara anteriormente nos classificados de jornais). Há vagas para pessoas com deficiência, sim. Há inúmeras vagas. A maioria delas, porém, para pessoas com Ensino Fundamental completo (ou incompleto), uma pequena parte para pessoas com Ensino Médio e nenhuma parcela para pessoas com Ensino Superior ou pós-graduação. A busca por um emprego na minha área de formação já dura quase cinco meses.

AS AGÊNCIAS DE EMPREGO

As agências de emprego foram unânimes ao me dizer: “Você tem um excelente currículo, és muito bem preparada, mas não temos vaga na tua área”. Todas me ofereciam vagas como auxiliar administrativo, telemarketing ou outros cargos.

Não teria problema nenhum em assumir uma vaga em qualquer outra função. Contudo, tenho experiência na área de Jornalismo, estudei e me preparei durante muito tempo para isso. Não estou iniciando na profissão agora.

Creio que tenho um potencial enorme para ser explorado na minha área de conhecimento, a qual – sinceramente – é a única em que me sinto segura e preparada para atuar. Para falar a verdade, é a profissão que escolhi por realmente me identificar com ela, é onde me imagino feliz e realizada profissionalmente e como pessoa.

Uma das agências chegou a me dizer que, por eu ter um ótimo currículo, tentaria fazer a “inclusão ao contrário”. Eu, perplexa, pensei: “Que bicho é esse?”. E o psicólogo que me entrevistou disse que eles iriam oferecer meu perfil para as empresas na tentativa delas me “encaixarem” no quadro funcional. Ou seja, o pessoal da agência tentaria “criar” uma vaga para mim – uma vaga que não existe –,exclusivamente pelo fato de eu ser uma PCD com boa qualificação.

Fiquei incrédula com a situação – acho que, principalmente, por eu não me sentir confortável em “usufruir” desse sistema de cotas. Sistema com o qual não concordo, mas, ao mesmo tempo, não tenho outra alternativa senão conviver com ele e com as armadilhas inerentes à essa Lei de Cotas.

Como assim “criar” uma vaga para mim? Isso não faz sentido. Se não está aberta é porque a empresa não tem demanda por esse profissional. Ou seja, não há necessidade de uma jornalista ou assessora de comunicação. Por que insistir?

Se estamos buscando a igualdade de condições e de oportunidades (será que é isso mesmo?), a criação de uma vaga artificialmente específica para mim (ou para qualquer pessoa) – mesmo que bem preparada – não é razoável.

AS OFERTAS DAS EMPRESAS

Além das agências de emprego, perdi as contas do número de empresas que me chamaram para uma entrevista pessoalmente apenas para me “conhecer” e “fazer meu perfil” por eu ser PCD. De modo geral, todas disseram que eu era bem qualificada, tinha experiência e tal, mas que não tinham vaga na minha área.

Todas me ofereceram cargos de auxiliar administrativo – tanto a vaga quanto o salário incompatíveis com as minhas expectativas. Fico pensando: Por que me chamaram se não havia a vaga? Por que me chamaram se eu especifiquei no currículo a minha área de interesse? Não seria isso uma perda de tempo (tanto para a empresa quanto para mim)?

Como qualquer pessoa, eu criei uma expectativa para cada uma dessas entrevistas. Entretanto, fui desapontada em todas. Foram consecutivas entrevistas frustrantes, pois em nenhuma havia uma vaga na minha área – eram sequer vagas para pessoa com curso superior.

Como eu recusei as vagas de nível médio, alguns de meus entrevistadores ainda tiveram a coragem (e a cara de pau) de me perguntar se eu não conhecia algum outro PCD que se interessasse por aquelas vagas.

O ESTEREÓTIPO

Eis uma tentativa desesperada das empresas na busca para o cumprimento da Lei de Cotas – lei que impõe inclusive multa às empresas que não a cumprem. Dessa forma, as pessoas passam a ser classificadas apenas como PCDs ou não-PCDs. Se forem, PCDs, há uma lista de vagas preestabelecidas que esses indivíduos podem desempenhar.

A Lei de Cotas que, teoricamente, deveria me beneficiar. Na prática, não sei se é isso que está acontecendo.

Procurar emprego é uma situação tensa para qualquer pessoa. No meu caso, tem sido ainda mais estressante por ter de lidar com esses absurdos e distorções do real objetivo desse sistema de cotas.

As empresas parecem sequer ter lido meu currículo com atenção. Parecem ler apenas a parte em que digo que tenho deficiência visual e nada mais. E o resto do currículo, de nada importa?

Parecem apenas interessadas em “encaixar” o PCD em vagas-padrão, preestabelecidas. Ou seja, o maior dos preconceitos que qualquer pessoa com deficiência pode sofrer é esse pelo qual estou passando atualmente: ser julgada previamente como incompetente ou incapaz de galgar postos mais altos.

Tal configuração do mercado ajuda a reforçar um estereótipo de que o deficiente não pode se desenvolver, vencer na vida, batalhar e ter uma graduação, mestrado, doutorado, pós-doutorado – enfim, rumo ao infinito, dentro de suas capacidades.

Entendo que, até pouco tempo atrás, as empresas não contratavam PCDs e que o simples fato de estarem contratando agora – mesmo que ainda somente para funções pouco qualificadas – já seja um avanço. Percebo os reais benefícios que a Lei de Cotas promove, mas creio que ainda é pouco. Estamos diante de um sistema que não entende o deficiente em suas qualificações, especificidades e características, seja como pessoa, seja como profissional.

Onde estão os empregos para jornalista, mestre em Letras, com deficiência? Ah, desculpe, emprego para deficiente só até o nível médio…

A bengala da sorte

Não estou muito acostumada a furar filas por ter deficiência visual. São vários os motivos. Primeiro porque fico meio constrangida em pensar que estou tirando algum tipo de “proveito” ou vantagem disso. Depois porque as pessoas não entendem o que é baixa visão e às vezes pensam que estou “fingindo” e querendo me aproveitar de uma situação. O meu problema não é muito aparente (para quem olhar os meus olhos), o que dificulta ainda mais a minha identificação como tendo uma deficiência visual.

Contudo, ter a preferência nas filas é um direito que eu tenho – e que não pode ser contestado. Essa lei existe na constituição nacional e está ai para ser cumprida.

Já furei muitas filas em ambientes que julgo “justificável” minha preferência, como, por exemplo, em fila de banco ou em fila de lojas. No banco, entendo que eu tenha preferência, visto que preciso entrar em uma agência toda vez que quero tirar dinheiro. Não consigo usar o caixa eletrônico por falta de acessibilidade nos terminais. Nesse caso, furo a fila sem “culpa”. Isso ocorre também em uma loja em que eu precise de ajuda por não encontrar sozinha um determinado produto. Ou ainda, para pegar o ônibus também exerço meu direito à preferência na fila por ser realmente uma situação complicada para mim – visto que não identifico qual o meu ônibus e tenho que perguntar para os motoristas.

Mas esse final de semana foi a primeira vez em que furei a fila para entrar em uma festa. Fui em um bar irlandês aqui em Porto Alegre. Era uma festa de Patrick’s Day (Dia de São Patrício), uma data sem tradição no Brasil, mas comemorada em países de língua inglesa no dia 17 de março. A data marca a celebração de um dia de sorte, em que as pessoas usam roupas verdes e as figuras de trevos são a decoração principal.

Confesso que eu e minha amiga Renata Lontra só fomos lá por dois motivos: primeiro porque quem estivesse vestindo roupa verde ganhavam um chope grátis (hehehehe) e segundo porque era uma festa muito comentada e sempre com muito público.

Chegamos no local super cedo e nos deparamos com uma fila gigantesca quase dobrava a esquina. A Renata disse que não iríamos conseguir entrar, que estava impossível e teríamos que ir para outro lugar. Apontei para a bengala e disse para não desistirmos, que aquilo iria “abrir caminhos”. E, de fato, foi o que aconteceu.

Fomos até a porta, no início da fila. O recepcionista olhou para nós – eu com a minha bengala elegantemente aberta – e disse que poderíamos entrar. Naquele momento senti que a sorte – celebrada nessa data – estava do meu lado.

A fila era tanta que tinha gente comprando inclusive uma camiseta por 50 reais que dava direito a entrada preferencial no bar. Algumas pessoas disseram que ficaram na fila por mais de duas horas. Simplesmente inacreditável. E eu tinha furado a fila enorme. Que maravilha!

Entrei sem culpa nenhuma por estar furando a fila, sem constrangimento ou vergonha – ao contrário do que provavelmente ocorreria tempos atrás. Minha amiga e eu comemoramos muito, pois realmente não iríamos conseguir entrar se não fosse pela minha bengala, que estava me trazendo sorte! Aliás, eu não teria paciência para esperar por mais de meia hora do lado de fora. E quando formos embora do bar, a fila continuava grande, com muita gente aguardando para entrar.

Mais do que simplesmente entrar no local, furar a fila naquele momento representou um marco importante na minha vida. Representou eu poder me divertir com essa situação. Ir em um local descontraído, com o objetivo de puramente me divertir, ouvir música, conversar, tomar um chope, falar bobagens. Pude fazer tudo isso usando minha bengala, sem achar que ela fosse um problema ou que fosse “errado” eu estar usufruindo de um direito que eu tenho.

A bengala foi uma solução real e imediata para o problema que se apresentou diante de nós (a interminável fila). Em outras situações a bengala era um motivo de estresse. E nesse momento foi motivo de alívio e felicidade.

Consegui finalmente inverter minha própria visão dos fatos. A lógica que até então eu vinha acostumada era a de só usar a bengala em situações críticas e de risco ou em momentos tensos e difíceis. Pude, dessa vez, usá-la para em minha descontração e lazer.

Às vezes ainda é muito difícil “aproveitar” os benefícios, as facilidades e as coisas boas da deficiência. Poder me divertir com ela, ter isso como algo leve, ainda é algo muito difícil.

Mas estou feliz e orgulhosa em concretizar esse desafio. Tenho uma bengala da sorte, que me trouxe sorte no Patrick’s Day e tenho certeza que vai trazer sorte em outros diversos momentos.

Ganhei um chope verde gratuitamente (sim, o chope era verde!), furei a fila e me diverti na festa ao lado de uma grande amiga. Tenho muitos motivos para comemorar. Uma bela experiência para uma nova fase da vida.

Não apenas o fato do chope ser verde foi inusitado e quebrou paradigmas, mas o meu próprio posicionamento diante dessa situação. Viva minha bengala da sorte! Só faltava ela ser verde também (mas é amarela)… ehehehehe.

Na foto, eu sorrindo, vestida de blusa verde e lenço verde no pescoço. Estou sentada na mesa do bar, segurando o copo de chope verde para frente. O copo é bem grande e está quase cheio. Há algumas pessoas ao fundo, em um ambiente escuro.

Minhas experiências na escola

Durante minha vida escolar passei por inúmeras dificuldades. Na Educação Infantil e no Ensino Fundamental o fato de eu ter deficiência visual (baixa visão) era muitas vezes confundido com ser uma pessoa tímida, com poucos amigos e problemas de relacionamento. Lembro de passar muitos recreios brincando na pracinha sozinha ou passeando pelos corredores da escola porque não encontrava onde estavam meus colegas. O pátio era muito grande, cheio de crianças, e isso me atrapalhava para identificar quem eram os meus colegas. Eu me sentia sempre sozinha e excluída. Essa é uma das principais lembranças (muito ruim, aliás) que tenho desse período escolar,

Quando fiquei mais velha, já no fim do Ensino Fundamental e início do Ensino Médio, percebi que eu não tinha problemas de relacionamento. Comecei a ter mais amigos, a me dar bem com as pessoas. Todos passaram a me chamar para eu identificar que eles estavam ali perto de mim. Não tinha mais o problema de “brincar” no pátio, mas ainda assim no intervalo eu tinha que saber onde as pessoas estavam para poder conversar com a turma.

Acho que no jardim de infância e séries iniciais faltou um pouco de sensibilidade dos professores para trabalhar essa questão da baixa visão com a turma e não deixar que eu estivesse sempre sozinha, me sentindo excluída. Acho que até eles acabavam acreditando e aceitando que eu tivesse problemas de relacionamento – sem entender realmente o que é baixa visão, as dimensões e as consequências disso.

Pintando a mesa
Lembro que em uma atividade de pintura (ainda no jardim) uma vez eu acabei pintando a mesa, pois me deram uma folha branca, pincel e tinta para desenhar em cima de uma mesa branca. Essa falta de contraste é terrível para mim ou para qualquer pessoa com baixa visão. Eu não sabia onde acabava a folha a começava a mesa.

Quando a professora viu o que aconteceu simplesmente limpou a mesa o mais rápido possível (como se tentasse esconder dos outros colegas o que havia acontecido e como se aquilo fosse um ato vergonhoso). Falou para eu ficar calma, que não tinha problema.

Mas para mim a situação foi muito constrangedora – e tinha problema sim. Me senti muito mal com a situação. A professora simplesmente limpou a mesa e disse para eu continuar pintando e fazendo o meu desenho “normalmente”, mas que eu deveria “cuidar” com a mesa. Algo simples para resolver a questão seria colocar um papel ou toalha de outra cor sobre a mesa branca… Creio que não é algo tão difícil de ser pensado ou imaginado, certo?

Lembro que, na ocasião, as outras crianças da turma ficaram fazendo piadas com a situação e dizendo que eu ia levar a mesa para casa… Foi horrível. Uma péssima lembrança que tenho desse período.

Hoje penso que eu poderia ter feito um belo trabalho artístico naquela mesa se não tivesse sido interrompida. Acho que inclusive tenho vontade de ter uma mesa para eu pintar todinha. Acho que ela ficaria bem bonita! Ehehehehe.

Educação Física
Outras situações difíceis aconteciam na aula de Educação Física. Tive que fazer atividades de bola até a 6ª série. Eu levava boladas no rosto porque não conseguia pegar a bola. Não tinha reflexos de velocidade e campo visual para saber de que lado vem a bola.

No vôlei, por exemplo, eu conseguia dar o saque e arremessar a bola por cima da rede, mas quando ela voltava eu não conseguia rebater (porque vinha muito rápido e eu não tinha esse reflexo).

Na verdade eu entrava na quadra, ficava toda retraída num canto, fugia da bola, fugia dos colegas. Fugia, pois não queria que ninguém me passasse a bola, sabia que não ia conseguir rebater. A Educação Física acabava reforçando a minha imagem como pessoa retraída, sem amigos e até anti-social.

O que era para os outros a aula mais esperada da semana para mim era a disciplina mais temida e detestada, As aulas de educação física eram intermináveis. Os minutos não passavam. Eu olhava no relógio a cada minuto e a aula não acabava nunca.

O dia da Educação Física era o dia que eu sempre queria ficar em casa. Aquela situação era horrível, Muitas vezes eu chorava antes de ir para aula porque sabia o que iria enfrentar. Quando era no primeiro período queria chegar atrasada de propósito…

A partir da 7ª serie então meus pais levaram um atestado medico dizendo que eu não poderia fazer atividades com bola. Daí a partir disso comecei a caminhar em volta da quadra enquanto os alunos jogavam. Hoje sei que não foi a melhor solução porque, ainda assim, não interagia com os demais e ficava isolada. De qualquer forma, na época foi muito bom, eu parei de ter pânico da Educação Física e de não querer mais ir para escola nesses dias. Nunca gostei da disciplina, mas pelo menos parou de ser um problema tão sério para mim.

Contudo, como eu “só” caminhava em torno da quadra esportiva e não fazia as coisas com bola (como era desejável), os professores sempre tinham a “brilhante ideia” de me pedir um trabalho escrito no final de cada bimestre. Eram trabalhos escrito para “compensar” o fato de não jogar bola.

Além disso, ironicamente esses trabalhos eram sempre sobre as regras de algum esporte com bola – vôlei, handball, do basquete etc. Todos esportes que eu não poderia jogar, o que acabava reforçando ainda mais um sentimento de exclusão naquela disciplina. Eu não jogava vôlei, mas tinha que fazer um trabalho escrito sobre suas regras. Qual o objetivo disso? De verdade me pergunto até hoje e não há uma resposta. Falta de sensibilidade e respeito, no mínimo!

Outras disciplinas
Nas demais disciplinas as matérias eram sempre ensinadas no quadro negro. Eu não conseguia copiar, mesmo sentando na 1ª fila. Como eu era muito esforçada e estudiosa, acho que os professores pensavam que não precisavam se preocupar comigo, pois eu “daria um jeito” de acompanhar a matéria ensinada.

E, de fato, era o que eu fazia. Me virava como podia e “dava um jeito”. Pedia caderno dos colegas emprestado para copiar. Levava o caderno para casa, às vezes tirava copia.

Lembro que cheguei na 1ª série já sabendo ler. Então muitas coisas ficaram mais fáceis. Quando a professora colocava no quadro coisas do tipo “ba- be – bi – bo – bu” eu já sabia escrever. Então ouvia o que ela dizia e escrevia. Sempre fui muito atenta em aula, desde criança. Acho que era uma forma de “compensar” o que eu não conseguia ler no quadro.

Quando as séries foram passando, algumas coisas ficaram mais complicado, pois as matérias como matemática, física, química usam muitos gráficos, números, formas geométricas e eram sempre ensinadas no quadro.

Meu pai sempre me deu aulas particulares de matemática em casa, além de química e física. Essas eram as disciplinas mais difíceis para mim. Sempre tive facilidade e gosto especial pelas humanas, como português, história, literatura e redação.

Ao longo de todo o período escolar nenhum professor me trazia impresso em letras grandes o que iria passar no quadro (como seria o ideal). As provas também não eram feitas em fontes ampliadas. Eu tinha uma lupinha de aumento que me ajudava, mas às vezes ainda tinha vergonha de usá-la. Quando criança era muito difícil assumir o fato de que eu realmente tinha uma deficiência visual. Não havia sala de recursos nem qualquer tipo de atendimento especializado para mim. E eu mesma não queria assumir essa condição ou essa posição de alguém que precisa de auxílio ou um atendimento especial.

Por sorte meu pai me “salvou” em todas as matérias da área das exatas. Sempre tinha aula particular com ele. E acho que era com ele que eu aprendia a maior parte das coisas que não conseguia acompanhar no quadro negro. Sua ajuda foi sempre essencial para que eu fosse aprovada nessas disciplinas. Mas não seria papel da escola providenciar esse apoio que eu precisava?

Apesar das dificuldades, nunca rodei e, aliás, tirava notas excelentes sempre. Só peguei recuperação uma vez. Acho que acima de tudo gostava de estudar. Talvez eu soubesse inconscientemente que teria que me esforçar bem mais em casa que os meus colegas.

Eu tinha a mesma capacidade para aprender que os outros, mas na medida em que não acompanhava o que era passado no quadro tinha que redobrar o esforço em casa. Ou seja, acabava tendo que me dedicar mais, despendendo mais tempo e mais esforço, principalmente com as exatas.

Disciplinas da área das humanas
Nas disciplinas humanas sempre ia muito bem. Uma vez ganhei um concurso de redação na escola. Escrevia poesia, contos, crônicas desde criança. Literatura sempre foi minha paixão.

Lá pelos dez anos criei um clube de cartas, em que muitas crianças e adolescentes do Brasil todo se correspondiam. O clube tinha um jornalzinho feito por mim, que era enviado para todos os “sócios”. Nesse jornal, eu colocava curiosidades sobre natureza, animais, ciência, informações sobre as cidades em que havia “sócios” do clube morando, entre outras coisas.

Em minhas correspondências eu trocava papel de carta, figurinhas, cartões postais e cartas propriamente ditas com gente de todo o Brasil O clube chegou a ter mais de 100 participantes, todos se correspondendo entre si. Até hoje guardo com carinho as cartas dos amigos que criei nessa época. Inclusive cheguei a conhecer alguns deles depois pessoalmente.

Encerro esse relato contando sobre o clube de cartas, que foi uma experiência muito positiva que tive durante minha infância e adolescência. Desenvolvi o hábito da escrita, da leitura, a curiosidade por conhecer outros lugares, os costumes e peculiaridades de outros pontos do país. Enfim, foi bem produtivo e emocionante. Cada carta era emocionante.

Enfim, não foram apenas coisas ruins que ocorreram durante meu período na escola. Meu objetivo em dividir essas experiências não é apenas contar as inúmeras dificuldades, mas mostrar como elas poderiamm ser evitadas. Com um mínimo de sensibilidade e bom senso novos alunos não precisariam passar pelos mesmos problemas.