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Audiodescrição torna exposição de fotos acessível a pessoas com deficiência visual no Centro de Porto Alegre

Ação será no dia 11 de janeiro, às 18h, no Largo Glênio Peres

 

 A exposição de fotografias da artista Carmem Gamba, no Centro da Capital, estará acessível a pessoas cegas e com baixa visão. Um grupo de audiodescritores ligado à Mil Palavras Acessibilidade Cultural realizará sessão de audiodescrição (AD) ao vivo dos painéis de fotos instalados no gradil do Chalé da Praça XV, no Largo Glênio Peres. A ação ocorre no próximo dia 11 de janeiro (quarta-feira), às 18h.

 

Pessoas com deficiência visual poderão entrar em contato com as imagens e compreender a exposição – que faz parte da mostra Artemosfera. A AD consiste em um recurso que torna acessível, através da narração, qualquer evento, vídeo ou produto cultural em que as imagens sejam relevantes para o entendimento e a interação com o conteúdo.

 

Serão oferecidas vendas para que o público sem deficiência visual conheça a exposição sem enxergar. Letícia Schwartz, integrante do grupo e sócia da Mil Palavras, explica que o objetivo é justamente apresentar a audiodescrição ao público amplo que circula pelo Mercado Público e Centro da Capital.

 

A expectativa, afirma ela, é chamar atenção para o fato de que as pessoas com deficiência são consumidores de arte, cultura e entretenimento. A ação revela a importância da busca de soluções de acessibilidade em toda e qualquer atividade cultural, ressalta.

 

“Para as pessoas com deficiência visual, a ação possibilita o acesso a uma atividade cultural de imensa relevância. Para pessoas sem deficiência, é uma maneira diferente de entrar em contato com a arte”, comenta Letícia.

 

Dados preliminares do Censo 2010 revelam que mais de 45 milhões de brasileiros têm alguma deficiência sensorial, motora ou intelectual, quase um quarto da população do país. Desses, 35,8 milhões declaram-se com algum grau de deficiência visual. Mimi Aragón, idealizadora da ação, observa: “Essas pessoas pagam impostos como todo cidadão e precisam ter assegurada sua  inclusão cultural. A AD não é um favor, mas um direito”.

Nesse sentido, salienta Mimi, é importante que os próprios deficientes visuais conheçam o recurso para cobrar de produtores e do poder público sua inserção em todo bem cultural ou evento de qualquer natureza. “E as pessoas em geral precisam conhecê-lo para que, num futuro próximo, ele esteja amplamente incorporado ao cotidiano de todos”, afirma.

 

A artista Carmem Gamba comenta que o Largo Glênio Peres é frequentado por uma diversidade de tribos. “E nada melhor do que dar um espaço para o rosto dessas pessoas no ambiente que elas ocupam. A exposição Esse Lugar é a Minha Cara nasce dessa ideia de ligar a pessoa ao espaço possuído, onde um é espelho do outro”, explica.

 

Ela define  a iniciativa de audiodescrição de seus painéis como “maravilhosa” e “de uma sensibilidade incrível”. Sem esconder a satisfação em ter suas fotos acessíveis a um público mais amplo, Carmem afirma: “A exposição irá atingir pessoas até então não pensadas pelos fotógrafos. Minhas fotos estavam expostas somente para quem enxerga. E agora estão disponíveis também a quem não enxerga ou enxerga pouco”.

 

A fotógrafa pretende disponibilizar a AD em seus próximos trabalhos. “Quero no futuro criar também uma exposição que explore os relevos, as formas, as texturas e as sensações”, comenta.

 

 

O depoimento dos usuários da audiodescrição

 

O estudante de doutorado em Educação da UFRGS Felipe Leão Mianes, que tem baixa visão, define a audiodescrição como uma verdadeira “revolução no acesso à cultura”. Segundo ele, o recurso representa uma imensa possibilidade de inserção cultural. “É um importante instrumento na adquisição de conhecimento e na compreensão de determinadas coisas que antes eram muito difíceis”, afirma.

 

Ele observa ainda que a realização de uma sessão de AD no Centro de Porto Alegre, onde circula uma grande quantidade de pessoas, permitirá que indivíduos que provavelmente não teriam acesso a uma exposição possam entendê-la e participar da vida cultural da cidade.

 

A professora Marilena Assis, que é cega e atua em diferentes espaços, diz que o recurso significa, para ela, oportunidade de acesso aos meios culturais – o que até hoje foi limitado em sua vida.  “A audiodescrição me entusiasma, pois agora posso compreender e discutir filmes, teatro, arquitetura e exposições com mais apropriação e segurança”, relata.

 

Conforme ela, o acesso aos bens culturais com AD é um direito que está, aos poucos, se tornando realidade. “Voltei a ter prazer em ouvir filmes na companhia de pessoas que enxergam, já que agora não perturbo os outros com minhas perguntas”, garante.

 

 

O grupo de audiodescritores

 

O grupo que assume a tarefa de descrever as imagens captadas pela fotógrafa Carmem Gamba é constituído por audiodescritores e consultores – estes com deficiência visual – arregimentados por Letícia Schwartz a partir da primeira turma de especialistas formada pela audiodescritora paulistana Lívia Motta, em Porto Alegre, no ano passado.

 

Integram o coletivo profissionais provenientes de diversas áreas – atores, escritores, funcionários públicos, jornalistas, locutores, pesquisadores acadêmicos, publicitários e técnicos de áudio – que estudam a teoria, prática e produção da audiodescrição. Juntos, já produziram a primeira AD de um videoclipe brasileiro (“O Caminho Certo”, da cantora e compositora Luiza Caspary) e a audiodescrição da mostra acessível a cegos e pessoas com baixa visão do Dia Internacional da Animação 2011, entre outros trabalhos.

 

 

SERVIÇO

O QUÊ: Audiodescrição da exposição Esse Lugar é a Minha Cara, da fotógrafa Carmem Gamba.

ONDE: Gradil do Chalé da Praça XV, no Largo Glênio Peres, em Porto Alegre.

QUANDO: 11 de janeiro (quarta-feira), às 18h.

COMO: Entrada franca, com distribuição limitada de vendas para o público sem deficiência.

Obra mal sinalizada causa acidente

A leitora e minha amiga Tatiane Soares Jesus me escreveu essa semana relatando um episódio lastimável e pediu que eu o compartilhasse no blog. Vamos ao fato, nas palavras dela:

 

“Eu estava essa terça-feira (29/11) saindo do supermercado com a minha afilhada, às 21h. Voltando pra casa, passei por uma loja (Secreta Vaidade, na avenida Protásio Alves, 278, bairro Rio Branco) que estava em obras.

Havia na calçada vários obstáculos no caminho e alguns cavaletes de ferro que batem na altura da barriga.

Na nossa frente caminhava um casal. Eu vinha mais atrás e só enxerguei a bengalinha da moça, mas como ela estava acompanhada continuei a conversar com minha afilhada.

Só que os dois tinham baixa visão. Quando escutei um “ai. ai” eles já tinham batido de barriga nos cavaletes. Bateram, mas não chegou a espetar nenhuma ponta neles graças a Deus.

Eles começaram a reclamar. Então chegaram dois funcionários da obra e ficaram parados sem falar com eles, como se já estivessem ali cuidando pra ninguém cair e eles é que não viram…

Logo depois que o casal foi andando apareceu uma mulher na porta, que parecia a dona, e eu falei: “Eles se machucaram, tem que ter alguma sinalização aqui”. E ela só ficou me olhando e não me respondeu nada.

Na hora só pensei em ajudar o casal a chegar até a parada de ônibus que eles queriam. Mas toda essa situação me deu muita raiva!”

 

Episódios como esse relatado pela Tatiane, infelizmente, são muito comuns, Cavaletes podem ser ótimos sinalizadores para as pessoas que enxergam com perfeição. Mas para os deficientes visuais representam uma armadilha.

 

Nos cavaletes há uma estrutura de madeira (ou outro material) suspensa e, por isso, não identificável pela bengala, que toca somente o chão. A pessoa só percebe sua presença quando já bateu o próprio corpo no objeto – o que pode ocasionar acidentes graves.  

 

No caso de placas, fios de aço (atravessados nas calçadas), orelhões, galhos de árvores, entre outros, a bengala também não os capta. Por isso representam um grande risco à segurança de pessoas com deficiência visual.

 

Mais do que isso, tais obstáculos desrespeitam os direitos humanos. Qualquer pessoa tem o direito de ir e vir e de transitar com liberdade, segurança e autonomia por calçadas e ruas da cidade.

 

Para uma devida sinalização é preciso que qualquer obra, principalmente em calçadas, seja devidamente identificada com piso tátil ou marcações na altura do chão que permitam ao deficiente visual desviar corretamente.