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DO SONHO AO NASCIMENTO

Quero compartilhar com você, querido leitor, uma grande novidade. Para quem ainda não sabe, o sonho de ser mãe se concretizou na minha vida. Isso mesmo, minha filha Natália nasceu no dia 10 de junho desse ano. Ela é linda e está com quase quatro meses. Você deve imaginar também que a correria anda enorme e por isso, a dificuldade em manter o blog atualizado.

Mas desde o início da gestação não deixei de escrever. Essa é a segunda grande novidade. Desde que descobri que estava grávida em outubro do ano passado comecei a escrever um grande relato que irá em breve ser publicado em livro.

Nas cerca de 160 páginas falo sobre o sonho da gestação, a gravidez em si, o acompanhamento pré-natal, minha deficiência visual e a decisão de ser mãe, as adaptações necessárias em minha rotina e na preparação para a chegada da nenê, os preconceitos enfrentados já desde o início da gestação, os maiores desafios etc. Tudo isso em um contexto em que parte da minha gestação foi permeada pela pandemia do Corona Vírus e pelo isolamento social. O chá de fraldas, as visitas na maternidade e na nossa casa não puderam acontecer.

A filhota nasceu forte e saudável em meio a esse contexto adverso que o mundo enfrenta. No livro conto também os receios com relação a ganhá-la nesse período, os auxílios que eu e meu marido (que também tem deficiência visual) recebemos, entre outros aspectos. Então a obra é permeada por todos esses pontos, o que acredito que sejam pautas que chamem atenção de leitores que queiram conhecer realidades diversas enfrentadas durante o isolamento social, além de detalhes da preparação de uma mamãe de primeira viagem com deficiência visual para a chegada de seu maior tesouro.

Estou em fase de revisão final do livro antes de enviá-lo para publicação. Como ainda não fechei o título, a editora e data de lançamento, vou deixá-lo na curiosidade e trarei mais informações sobre tudo isso em publicações posteriores. Para não dizer que não publiquei nenhum trechinho da obra aqui no Três Gotinhas, separei um capítulo inteiro para brindar quem me acompanha por aqui. O capítulo que publico abaixo foi escrito em fevereiro deste ano, ainda antes da pandemia assolar o Brasil, quando minha vida ainda seguia uma rotina relativamente “normal”.

Na metade do segundo trimestre da gestação entramos em quarentena e passei ao trabalho remoto. Embora na época acreditasse que poderia voltar ao trabalho presencialmente antes da licença-maternidade, logo percebi que isso seria impossível e estou em casa, no fim das contas, desde março deste ano.

Tomara que vocês gostem do capítulo e a curiosidade pelo texto completo fique aguçada. Boa leitura!

LEITURAS E DIVAGAÇÕES

Durante o feriadão de carnaval no final do mês de fevereiro, quando eu já estava com vinte e quatro semanas de gestação, resolvi dar um tempo para minha mente e pensamentos até então completamente absortos no universo da maternidade e buscar uma leitura diferente.
Estava um pouco saturada de assistir vídeos, podcasts e comentários exclusivamente sobre amamentação, quartinhos de bebê, fases do desenvolvimento da criança, entre outros tópicos relacionados.

Todos esses temas eram de imensurável interesse desde o início da gestação, mas confesso que em determinado momento começava a achar tudo um pouco enfadonho e me questionava se eu estaria perdendo minhas outras identidades, gostos, características e personalidade.

Sabia racional e conscientemente que não, que seria a mesma mulher, acrescida agora de uma identidade a mais, pois me tornava também a mãe da Natália. Contudo, a maternidade era uma novidade tanto para mim quanto para os outros na relação comigo.

Percebia, de forma bastante nítida, que as pessoas somente puxavam assuntos comigo relacionados à gestação, aos preparativos para a chegada da nenê, sobre como seria o parto etc. Eram pautas inevitáveis e geralmente adorava conversar sobre isso.

Entretanto, eu continuava fazendo as mesmas coisas de antes: trabalhava, me preocupava com minha vida profissional e como seria dali para frente, saía de casa, tinha grupos de amigos, família, marido, casa para administrar, exercícios físicos para fazer, conta bancária e preocupações diversas. Assim, considerava um pouco estranho não conversar mais sobre assuntos que costumava falar anteriormente, tendo em vista que os outros aspectos da minha vida seguiam, na medida do possível e com algumas adaptações, como antes.

Nessa fase lembrei muito do que conversei certa vez com uma amiga sobre essas inquietudes e divagações. Ela dizia que parecia que tinha deixado de ser ela mesma por um tempo, que durante a gestação e nos primeiros meses do nenê ninguém se referia a ela com os mesmos assuntos que se referiam anteriormente, que inclusive no seu próprio aniversário davam presentes para seu bebê e queriam o tempo todo paparicar o filhote.

O fato dos amigos e familiares demonstrarem afeto pela criança era ótimo, mas seria fundamental também a manutenção da boa autoestima da mãe. Se a mulher não tivesse bem consigo mesma também não conseguiria cuidar do bebê com a dedicação e o zelo que precisava. Dar conta e ter espaço para os outros aspectos da vida era saudável e necessário.

Naquele momento as palavras da minha amiga caíam como uma luva para representar tudo o que eu sentia. Certa noite, sem entender bem o porquê, chorei desenfreadamente. Chorei como uma criança, talvez porque tivesse muitos medos e angústias sobre como seria a sensação e a responsabilidade de cuidar de uma criança.

Talvez por sentir que deixava minha posição de filha de vez para trás e agora eu era mamãe.

Talvez porque tudo aquilo que eu desejara muito estivesse acontecendo e eu não soubesse ainda como lidar.

Talvez porque eu mesma esperasse muito de mim naquele momento, me cobrava respostas e até uma experiência que eu não tinha.

Talvez porque eu quisesse demonstrar força e segurança, me esforçando para encobrir meus medos dos outros e de mim mesma.

Talvez porque eu tivesse medo de não dar conta de alguns outros projetos profissionais que eu tinha idealizado, como o plano de fazer um doutorado, que havia sido temporariamente suspenso.

Talvez , e este talvez tenha sido o maior motivo, por ficar me perguntando se eu seria uma mãe à altura das necessidades e demandas da Natália.

Chorei desenfreadamente por umas duas horas. Foi uma catarse que limpou minhas angústias e ajudou a relaxar um pouco de tantas tensões e preocupações. Sabia que eu era exigente demais comigo mesma, queria que tudo ocorresse perfeitamente, mas tinha consciência que a maternidade não seria algo que eu pudesse controlar ou prever. Teria de passar por contratempos, imprevistos e me adaptar às diferentes situações.

Sentia um turbilhão de emoções mexendo comigo. Era o corpo se transformando o tempo todo. Eram as roupas que não cabiam mais. Era a minha mente que não funcionava mais como antes. Agora eu estava o tempo todo me preocupando com tudo e pensando como eu faria as mesmas coisas de antes com uma bebezinha.

Aliás, será que eu conseguiria fazer as mesmas coisas? As mudanças eram biológicas e hormonais. Não poderia ir contra isso, sabia que faziam parte do processo. Ainda assim, era difícil e traziam uma série de desafios inclusive psicológicos.

Apenas naquele período da gestação havia entendido com profundidade o significado e a dimensão das sensações descritas por minha amiga, que passaram a tocar minha alma. Ela me contou, naquela conversa, que acreditava que o fato da mãe sentir-se em segundo plano nas relações sociais em parte era natural, porque era sem dúvidas uma mudança radical na vida de qualquer mulher e biologicamente a própria mãe sempre colocaria seu filho como prioridade.

Mas o importante era que depois de um tempo as coisas começariam a se encaixar novamente. Ela não sabia dizer muito bem como e quando, mas a vida adquiria uma nova rotina e uma nova dimensão – muito mais intensa, feliz e gratificante.

Aos poucos minha amiga disse que foi possível retomar as atividades, projetos e hábitos que tinha antes, com seu bebezinho um pouquinho mais crescido. Eu tinha minhas inseguranças e questionamentos, mas tinha convicção que isso ocorreria comigo também.

Lembrar daquela conversa era, de alguma forma, reconfortante e alentador, me passando uma injeção de segurança e ânimo por não estar sozinha naquele mar de novidades. Como já comentei anteriormente, eu estava com os hormônios à flor da pele. Tudo era motivo para eu me emocionar, era uma manteiga derretida com qualquer programa de TV, filme, assunto mais emotivo e principalmente nas relações sociais.

Às vezes uma pequena fala em tom mais alto ou uma pessoa discordando de mim já eram razão para eu me aborrecer. Me sentia em uma espécie de TPM constante. Meu humor era como uma montanha-russa, acordava feliz e tranquila, passava o dia bem, mas ocorria um fato qualquer e era como se toda minha vida fosse acabar ou não fizesse mais sentido. Um tanto dramática. Um tanto intensa. Um turbilhão de emoções.

Uma briguinha ou discussão pequena transformavam-se rapidamente em uma grande crise existencial. Quem mais sofria com isso naquele momento era meu marido Rafael. Ele era a pessoa mais próxima e muitas vezes eu acabava descontando meu estresse nele.

A busca por uma leitura diferente naquele feriado de carnaval, que ficaria em casa era, na verdade, uma grande e simbólica tentativa de resgatar meus gostos pessoais. Um deles era o amor pela literatura, pela leitura, pela poesia e pela descoberta de novos autores e histórias.

Buscava uma literatura leve e estimulante para passar o tempo. Baixei então no tablet o livro “Cem Dias Entre Céu e Mar”, de Amyr Klink, que foi bastante assertivo para aquele propósito. Minha leitura era, na verdade, uma escuta, pois dependia do leitor de tela. Nesse sentido, acabava sempre ficando refém dos livros em formato digital – que felizmente hoje estão bem mais difundidos.

A voz que lia o livro para mim era um som sintetizado, que atualmente também era muito mais agradável ao ouvido do que já fora anos atrás. Atualmente é possível inclusive o usuário escolher a voz que lhe agrada mais. É através dos leitores de tela que utilizo o computador, o tablet e o celular. Hoje com a tecnologia acesso minha conta bancária, aplicativos de mensagens, redes sociais, livros, sites, notícias, fóruns, contatos telefônicos, emails, blogs, podcasts, etc.

Embora nem todos os sites sejam bem feitos e planejados para serem utilizados com o leitor de tela, o acesso de quem tem deficiência visual ao mundo da tecnologia já é revolucionário na comparação a uma década atrás e nos traz uma autonomia imensa. Não apenas para as diversas situações cotidianas que já mencionei, mas também para nos colocarmos no mercado de trabalho e termos uma vida profissional ativa.

Sobre o livro em questão “Cem dias entre o céu e o mar”, em pouco tempo devorei a obra, que é imensamente prazerosa. Trata-se da história real da viagem de Amyr em um pequeno barco a vela, sem nenhum outro tripulante, no ano de 1984. Ele detalhava a epopeica e desafiadora missão a que se propôs desde o porto de Luderitz, na Namíbia, até a praia da Espera, em Salvador, na Bahia.

Eu, que sempre fora apaixonada por água e pelas belezas da natureza que envolviam mar, lago, praia ou cachoeira, fui fisgada intensamente pela poesia e riqueza de detalhes que permeavam a trama.

Ao lermos o título da obra ou qualquer sinopse da mesma, já tínhamos uma boa ideia acerca do enredo. Entretanto, a narrativa concentrava-se em todos os aspectos que envolviam a navegação, desde o planejamento do barco, da rota, o estudo das correntes marítimas e as condições climáticas, o porto de partida e o porto de chegada, passando por todas as aventuras em alto-mar.

Amyr revela uma capacidade incrível de resiliência e de contorno das adversidades do percurso. Enfrentar tempestades, tubarões, peixes dourados, baleias, sol excessivo e até o capotamento do barco. Sabia como ninguém como lidar com os percalços de sua expedição, revelando-se um sábio e experiente navegador. Ademais, o viajante demonstrava um preparo psicológico imenso para passar cem dias em alto-mar, lidando com a solidão e com a passagem vagarosa do tempo de forma admirável.

O protagonista torna-se parte integrante do ecossistema que o cerca, conversando com os peixes, gaivotas e golfinhos que o acompanhavam, compreendendo seus hábitos, interpretando os sinais e comportamentos dos animais, das nuvens, do vento e das próprias ondas do mar. Passava a classificar e a nomear as ondas conforme sua intensidade e a maneira como atingiam a embarcação.

O livro é um grande poema que dança sobre as ondas dos oceanos, festejando o mar e as forças da natureza. Ao chegar à Praia da Espera, em Salvador, Amyr Klink resumia a certeza que tomava conta de sua existência: “Descobri que a maior felicidade que existe é a silenciosa certeza de que vale a pena viver”.

Apesar de eu ter buscado essa leitura por querer ler e pensar em pautas diferentes do universo infantil e da maternidade, ao terminar o livro ficava muito evidente a relação que fiz com um artigo que tratava justamente sobre as crianças de hoje em dia. Intitulado “Ninguém cresce sozinho”, de autoria de Patrícia Grinfeld.

O texto fala que “em um mundo de processados, a criança não aprende mais o que é processo”. Tratava-se de uma crítica ao estilo de vida contemporâneo e à industrialização exacerbada, em que as crianças não participavam da elaboração ou feitura de seus próprios brinquedos e brincadeiras, acostumando-se à dinâmica em que recebiam produtos prontos das mãos dos adultos.

Elas não têm, segundo o artigo, envolvimento com a criação, alienando-se de seus processos e acostumando-se a um mundo em que encontram tudo pronto. Não é raro nos depararmos com crianças que não sabem que uma casa é feita com tijolos, cimento e outros materiais, que um bolo leva farinha, ovos, açúcar ou que o leite não sai da caixinha do supermercado.

Nesse sentido, acabava me identificando muito com a ideia da autora de que as crianças precisam aprender sobre os processos da vida, de elaboração das coisas e que tudo tem seu tempo para ser processado e confeccionado. Em última instância, tudo teria um momento para ser digerido, sentimentos para serem sentidos, estresses para serem enfrentados, aprendizados para serem elaborados. Era importante aprender com os processos, que poderiam estar relacionados a materiais físicos ou a questões comportamentais em geral.

Lembrei inclusive de algumas atividades que eu fazia quando criança na escolinha, em que os professores solicitavam que levássemos material de sucata para confeccionarmos brinquedos. Caixas de sapato, garrafas pet, tampinhas, pastas de dente vazias, rolos de papel higiênico, retalhos de lã e de tecido, copinhos de iogurte, embalagens e sacolas diversas eram matéria-prima para uma infinidade de itens, como aviõezinhos, carrinhos, bonecas, prédios, ruas e até cidades inteiras.

Após a construção de nossos brinquedos com as sucatas, era preciso esperar muitas vezes a cola ou a tinta que usávamos para colorir, secar. Aprendíamos a respeitar o tempo necessário para podermos de fato brincar com nossas produções, que nos enchiam de orgulho e alegria. Era um momento de expectativa e que trazia grande aprendizado sobre os processos envolvidos.

Rememorava essas atividades da infância com nostalgia e saudosismo. Inclusive comentei com o Rafael que queria muito brincar com a Natália de montar e criar brinquedos utilizando coisas simples do dia a dia que jogamos fora no lixo seco. Faremos uma grande oficina de criação de brinquedos em casa!

Eu, na verdade, em muitos aspectos me identificava com a educação “à moda antiga”, se é que poderia chamar assim. Eu era contrária, por exemplo, ao excesso de celular, tablets, televisão, computador e videogame para as crianças. Sabia que não poderia impedir Natália de ter contato com a tecnologia e que inclusive era importante que aprendesse, mas eu era contra entreter os filhos o tempo todo com esses recursos como ocorria em muitas famílias.

A partir do texto de Patrícia Grinfeld e do livro de Amyr Klink pude repensar sobre os diversos processos da vida. A leitura da obra de Klink foi para mim emblemática, porque demonstrava a busca não apenas pela linha de chegada ao litoral baiano, mas o sabor da viagem, das aventuras e de cada etapa que constituíram a imensa travessia.

O artigo de Patricia evidenciava a importância dos processos, fundamentalmente na infância, mas que se aplicavam para a vida toda. No fim das contas, fui buscar novas leituras com o intuito de pensar em outros temas além da maternidade, mas percebi que talvez essa tarefa já não fosse mais possível. Natália já fazia parte de cem por cento da minha vida, crescia literalmente dentro de mim. Fazia parte integral do meu coração, sentimentos, pensamentos e preocupações.

Percebi então que todos os meus olhares, objetivos e sensações já estavam voltados para a Nati. Depois que ela nascesse e nós duas já estivéssemos adaptadas à sua vida fora da barriga, eu iria resgatar meus antigos hábitos, rotinas e características, sempre ajustando-os e somando-os aos cuidados e atenção com ela.

Talvez nada jamais seja novamente como antes – e que bom que as coisas mudam e estão sempre em transformação! Todas as minhas leituras e indagações dali para frente seriam inevitavelmente permeadas por essas pautas. E isso representa uma nova perspectiva de vida, com uma nova dimensão e significado.

A vida não é uma linha de chegada, mas um processo. Meu foco dali em diante não seria ver a Natália formada na faculdade, trabalhando e com sua própria casa – embora, sim, eu fosse torcer por isso e pelo sucesso dela – mas sim era vivenciar e aproveitar cada etapa, desde os primeiros mesinhos de vida, cada descoberta, cada palavra pronunciada, cada sílaba aprendida, cada sorriso. Queria curtir suas gargalhadas, os primeiros dentinhos, os primeiros passos, as brincadeiras e descobertas, tudo deveria ser saboreado a seu tempo.

Era engraçado, e ao mesmo tempo surpreendente, mas eu – que sempre fora muito ansiosa – não estava querendo apressar a gestação. Quando me perguntavam se eu estava doida para que a bebê nascesse, dizia que estava tranquila com a espera. Possivelmente porque quanto mais o tempo passasse devagar, mais calma eu teria para me preparar para sua chegada. Talvez porque eu ainda tivesse uma série de coisas na casa e em minha própria cabeça que eu queria arrumar para me sentir mais tranquila e preparada.

Muitas mães me diziam para curtir a fase da gestação e da barriga grande porque depois eu teria saudades. Me olhava no espelho e me sentia linda. E nossa, nove meses parecem muito tempo, mas quando estamos vivenciando uma série de mudanças e transformações esse período parece voar. Por isso, queria dar tempo ao tempo, respeitando o desenvolvimento da nossa Natália e também a minha transformação e do Rafael como mãe e pai dela.